Educação para a autonomia

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Apesar de clichê, acho importante começar esse artigo pela etimologia da palavra autonomia: do grego, é uma junção de auto, que significa “de si mesmo” + nomos, que significa “lei”. Ao juntarmos as palavras temos a ideia de lei de si mesmo, ou aquele que estabelece as próprias leis.

Vou apresentar um recorte à partir da minha visão, usando algumas referências e nunca uma verdade pronta. Aliás, nada melhor que esse tema sobre autonomia para se questionar as prontas verdades.

Tenho um enorme prazer em escrever sobre autonomia, pois esse conceito está conectado com um valor que me é essencial e que acredito ser fundamental para a construção de uma sociedade mais solidária, harmônica e justa, estou falando da liberdade.

A liberdade é algo que por si só pode inspirar inúmeros artigos e livros, tem um enorme espectro de significados e com diversos apêndices: liberdade de pensamento, de expressão, de escolha, de ir e vir, etc…

Acredito que ninguém é absolutamente livre, mas acredito no seu poder como utopia. Como brilhantemente diz Eduardo Galeano “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei.  Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.

Para mim, entre outras muitas possibilidades, a liberdade é um processo, uma caminhada, uma capacidade, um contexto e é uma grande responsabilidade de escolhermos não somente o que fazemos, mas também quem somos. Como diz Sartre, um compromisso com nossos valores, sonhos e projetos.

Acredito que atualmente um dos caminhos mais importantes para desenvolvermos a liberdade individual (e coletiva), e assim desenharmos uma sociedade melhor, é à partir da experiência da autonomia dentro das escolas. Por isso considero tão significativo discutirmos mais sobre sua importância teórica, bem como sobre as oportunidades de desenvolvimento prático dessa competência dos educandos no ambiente escolar.

Autonomia só existe no coletivo

Ao se pensar de forma simples e superficial de que autonomia é a “lei de si mesmo” podemos chegar a uma conclusão também superficial que a autonomia é algo individual e egocêntrico, uma vez que enxergamos e atuamos no mundo à partir de nossa perspectiva humana, individual e singular. Como dizia Protágoras “O homem é a medida de todas as coisas”.

Então surge uma pergunta. É possível sermos autônomos sem pensarmos no coletivo e no meio ambiente?

José Pacheco começa seu livro Dicionário de valores¹ pela autonomia e traz uma reflexão sobre a contraditória complementaridade com a dependência.

“O conceito de singularidade é-lhe próximo, mas situa-se aquém da autonomia, porque o reconhecimento da singularidade consiste na aceitação das diferenças inter-individuais, enquanto autonomia é o primeiro elemento de compreensão do significado de “sujeito” como complexo individual.  Ou, como diria Morin, a componente egocêntrica deste complexo é englobada numa subjetividade comunitária mais larga, porque ser sujeito é ser autônomo, sendo ao mesmo tempo dependente“.

Nessa linha desvelamos o fato de que a autonomia requer uma compreensão do sujeito como complexo individual, que engloba as subjetividades comunitárias, entre elas nossa responsabilidade nas consequências dos nossos atos em nossas relações, com o outro e no ambiente em que vivemos.

Para o Pacheco a autonomia é produto da relação e se dá na liberdade de experiência e de expressão dentro de um sistema de relações e de trocas sociais.

Autonomia é para criança também

Se autonomia é reconhecida como algo fundamental para desenvolvimento do indivíduo adulto em um sujeito crítico dentro de uma sociedade democrática, por que negamos a importância do desenvolvimento da autonomia para as crianças e jovens?

Segundo Janusz Korszac uma criança compreende e ra­ciocina como um adulto, só que não possui a sua bagagem de ex­periência. Para ele, elas têm o direito de serem tratadas pelos adultos com carinho e respeito, como iguais.

E como iguais creio que deveríamos também prezar pela autonomia das nossas crianças e jovens (de acordo com as limitações e maturidade individuais), sendo assim me pergunto: Que escolhas as crianças têm ao se depararem com aulas em grades e horários definidos, provas que medem as mesmas coisas em todos, educadores que não tem tempo e espaço para escutar as emoções, sonhos e medos dos educandos?

Autonomia na escola

Paulo Freire afirma que é necessário que os educadores criem as condições para a construção do conhecimento pelos educandos como parte de um processo em que professor e aluno não se reduzam à condição de objeto um do outro, porque ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.

Essa linha de raciocínio existe por sermos seres humanos e, dessa maneira, temos consciência de que somos inacabados, e esta consciência é que nos instiga a pesquisar, perceber criticamente e modificar o que está condicionado, mas não determinado, passando então a sermos sujeitos e não apenas objetos da nossa história.

Como diz meu amigo educador e mestre Denis Plapler, a autonomia precisa ser vivenciada pela experiência, “A gente aprende a jogar bola, jogando bola, aprende a tocar violão, tocando violão, aprendemos a ler, lendo, a escrever, escrevendo e a gente aprende a escolher escolhendo, quando a gente sabota a possibilidade da experiência ou da escolha, sabotamos inevitavelmente a possibilidade da autonomia”.

Sem isso viramos indivíduos adultos que não aprendem a escolher e coletivamente uma sociedade com dificuldades de escolher, o que pode até determinar nossos governantes e  o nosso futuro como humanidade.

Por isso não basta ter a autonomia como valor apenas, pendurado na parede da escola ou no discurso no ínicio do ano letivo, é necessário que seja colocado em prática e para isso existem diversas maneiras, como: matérias eletivas, projetos, assembléias, participação do educando na construção da sua trilha pedagógica, sentar em roda, mudar a prática em sala para metodologias ativas e mais um monte de exemplos, que são tão diversos em formatos quanto a combinação de elementos de cada comunidade escolar ao redor do mundo.

E sobre esse processo, repleto de desafios e oportunidades, existem muitos artigos e livros como o volta ao mundo em 13 escolas ou como no Podcast do Aquário Livre em que a educadora e minha guru de vida, Suzana Ribeiro, fala sobre sua experiência no Projeto Âncora.

Autonomia e a facilitação

A metodologia da Electi que trata dos 8 pilares da facilitação, traz elementos muito relevantes para criar um ambiente onde o conhecimento pode ser construído por todos com autonomia. Podemos dizer que a facilitação não ensina nada pronto, mas que, como uma metodologia ativa, provoca a aprendizagem à partir da escolha e do protagonismo dos participantes que têm a oportunidade de desenvolver a sua autonomia à partir da sua prática a cada encontro. 

Entre eles posso destacar a importância dos pilares: equilíbrio de poder,  construção do ambiente emocional positivo, escutar para conectar e presença ativa e responsabilidade. 

Quando pensamos em desenvolver a nossa capacidade de criar as nossas leis baseadas numa filosofia moral própria, que considere o coletivo e o meio ambiente, estamos promovendo a construção de sujeitos críticos e ativos, ao mesmo tempo em que promovemos uma transformação contra a brutal desigualdade social do nosso país e contra a destruição do planeta. 

Nesse momento nos alçamos ao posto de sujeitos protagonistas da história e como coletivo questionaremos quaisquer outras leis que nos pareçam injustas (lembrando que escravidão dos índios e negros no Brasil e perseguição contra os judeus na Alemanha estavam amparadas por lei) e que beneficiem apenas alguns grupos em detrimento da humanidade e do planeta.

Termino com uma frase de Sartre, “não somos aquilo que fizeram de nós, somos aquilo que fazemos com aquilo que fizeram de nós”. E vocês o que farão com o esse conteúdo? Se quiserem mais nos acompanhe nas redes sociais e saiba mais ! Ou se inscreva em nossa newsletter na home do blog!

¹ Pacheco, José Dicionário de valores / José Pacheco. — 1. ed. — São Paulo: Edições SM, 2012.

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