Avenues School: realidade ou utopia?

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Conhece alguém que tivesse vontade de ser criança de novo SÓ para voltar para a vida escolar? Eu não. Hoje eu senti. Acabei de passar dois dias na Avenues School São Paulo.

Visitei dezenas de escolas em São Paulo e região nos últimos 3 anos e acompanho bastante o cenário mundial, afinal faz parte do meu trabalho para que possa atuar com foresight estratégico nesse mundo, no setor da educação. Naturalmente já tinha ouvido falar muito da Avenues – e estudado o que estavam fazendo em Nova Iorque – e acompanhei muito do que saiu na mídia na época em que foi noticiado que a 2ª unidade seria na principal capital socioeconômica de nosso país.

Bom, para quem não conhece a tal Avenues School, sugiro que busquem artigos na internet – encontrarão vários – mas em suma, é uma proposta que nasceu em Nova Iorque abrindo suas portas em 2012 e visa educar crianças e jovens para atuarem como líderes globais. Mas ao meu ver, algo muito interessante é como eles construíram um modelo “do zero”, consolidando tantos novos conceitos debatidos no mundo da educação E dos negócios E mundo. Sua 2ª unidade foi aberta em São Paulo em 2018 e hoje está presente também na China.

Por conta de em 2019 estar envolvida com muitas coisas, não priorizei a visita. Mas eis então que hoje volto para casa de meu 2º dia de imersão na conferência realizada por eles e aberta para toda a comunidade escolar, a New School of Thought Institute Conference. CHOQUEI! Em muitos sentidos. Tantos que nem conseguirei trazer todos de uma única vez. Ainda preciso refletir sobre muitos pontos. Muitos.

Sempre repeti em alto e bom som até uns 30 anos de idade que não gostava de estudar. Mas sempre fui muito estudiosa – para uma série de assuntos que eram de meu interesse – e muito disciplinada em minhas auto-investigações. Tenho algumas formações, um milhão de cursos, nem dou conta de atualizar tantos em meu linkedin – até porque ando bem mais preocupada em colocar em ação tudo o que tenho me desenvolvido do que falar em “diplomas”. Apenas depois dos 30 é que comecei a perceber com muito mais clareza de que sim, eu SEMPRE AMEI ESTUDAR. Mas definitivamente não no modelo de “escola” que eu conhecia.

Hoje, por atuar no setor – tanto como professora universitária, como empreendendo e me debruçando nos últimos anos sobre a compreensão de como a disrupção na educação tem acontecido mundo afora e ainda o que está por vir – tenho total clareza de que o problema para mim nunca foi “estudar”, e sim o “como estudar”, o “por que estudar tal assunto”. E senti que ver sentido em estar na escola era perceptível nas feições e corporalidade dos alunos de lá.

Um resumo rápido que gostaria de compartilhar sobre minhas impressões iniciais.

Opiniões na mídia e redes sociais sobre a Avenues School São Paulo

Eu tinha sido impactada com muita mídia e comentários de muitos colegas que permeiam pelo setor por uma vertente mais negativa do que positiva, muitas críticas que sempre compreendi o ponto de vista trazido por tantos, mas não necessariamente concordava. Afinal, se eu não tinha conhecimento de causa mínimo, nunca estive lá e nem falei com pessoas de lá, não me sentia em condições de opinar.

Muitos de meus amigos sabem sou uma pessoa de negócios, design e disrupção. E louca por educação e por isso resolvi conciliar todos estes pilares nos últimos 5 anos em minha atuação profissional atual, após mais de 20 anos atuando na indústria.

Me parecia que muito do que estava sendo falado eram prismas nada sistêmicos, críticas bem enviesadas. Que como disse, as compreendo, mas sempre imaginei que faltavam outras vertentes para melhor contemplar um debate saudável em torno do caso Avenues. E hoje, reuni mais tantos outros prismas.

A Avenues revolucionou a forma de se pensar no processo de desenvolvimento do Ser desde a 1ª infância até o início da vida adulta – e isso custa.

O que a Avenues fez foi uma curadoria de altíssimo nível de tudo o que era mais contemporâneo em TODOS os aspectos, não apenas educação. O que eles conseguiram fazer – que parecia utópico até poucos anos atrás – tem muito a ver com o que eu sempre digo por aí: a real transformação da educação, especialmente a básica e a universitária, viria mesmo de novos players de mercado, já que os atuais insistem, na grande maioria, em continuar bebendo de inspirações e compreensões de mundo ainda dentro do próprio setor ou no máximo, o setor “vizinho” ou correlacionado, como, por exemplo, se aproximar de edtechs achando que “agora nós entendemos do que se trata a inovação no contexto escolar”. De forma alguma isso é ruim. Apenas não basta, é reducionista demais.

Facilitação no contexto escolar como meio

Atuo com facilitação há alguns anos, mas passei a me dedicar a compreender a potência dela como design e transformação dos ambientes de aprendizagem mais recentemente. Me surpreendeu como tudo o que fui observando ao longo desta imersão lá, inclusive tendo a oportunidade de assistir ao vivo mais de 5 turmas de idades distintas, é permeado pela essência da facilitação. No entanto, em nenhum momento fui impactada por este discurso por parte dos profissionais todos envolvidos na conferência.

Porém, um dos alunos de high school da unidade de Nova Iorque, que junto de outros 4 colegas deram seus depoimentos públicos e se colocaram à disposição dos participantes da conferência para esclarecer dúvidas, fechou seu depoimento usando exatamente esta palavra: que no fundo, para ele era muito perceptível que seus professores eram muito mais facilitadores do processo de aprendizagem do que “professores” – creio que ele tomou como base o seu próprio conceito do que é ser professor/a.

Sei que a facilitação no contexto escolar não é facilmente compreendida por muitas pessoas, mas em vez de eu mesma explicar, indico que leiam o texto de uma pessoa que eu admiro muito, o Bruno Kibrit. 

I-phone 1 X Fórmula 1 X Avenues School

Só temos smartphones hoje em nossas mãos e de forma massificada porque um dia uma grande empresa resolveu ter a audácia de investir muito, mas muito dinheiro, buscando uma solução revolucionária. E ciente dos riscos que corriam. Tanto que já tinham corrido outros e perderam muito, em todos os aspectos. Isso é o custo de ser pioneiro, vanguardista.

Só temos uma série de tecnologias em veículos automotores hoje e massificadas – de todos os portes e para todos os fins – por conta de negócios como a Fórmula 1. 

Ou seja, é fácil criticar uma iniciativa deste porte, especialmente pelo “elitismo”, quando ainda os benefícios “para todos” não são claramente percebidos – pela grande maioria.

Minha provocação final – que me coloco plenamente nela, como parte responsável de pensar sobre isso – é:

Seria papel apenas da Avenues pensar em como tornar este modelo tangível, acessível a todos?

Se a Avenues foi competente o suficiente para reunir tantos profissionais e cabeças fora de série para equalizarem a questão a que se propuseram, porque a sociedade civil interessada nos benefícios não poderia se unir e pensar JUNTOS em como gerar novos conceitos similares para nossas crianças e jovens, nos inspirando no que já tem sido corajosamente validado pela comunidade desta escola modelo?

Não sabendo que era impossível, foi lá e fez. 

Jean Cocteau

Pois é minha gente. Amo essa frase, me identifico muito com ela. E eu sou movida por desafios. Se mais gente quiser se juntar para pensar sobre isso, e mais do que pensar, agir, bora prá um papo?

Enfim, ainda tenho muito a compartilhar sobre impressões e inquietações sobre o que vi na Avenues. Mas preciso de mais tempo para processá-las. Em breve, trago mais… : )

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