Tudo e todos em transformação: Avenues School, seu discurso, suas práticas e o futuro da educação. E do setor.

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“Entrar na faculdade? Que coisa mais old fashioned!…” diz aluna da Avenues School no sábado pela manhã no último dia da Conferência na Avenues. Falar sobre futuro da educação envolve todo o ciclo de desenvolvimento do ser, o que alguns também poderiam atrelar a um termo do momento: lifelong learning.

Esta conferência foi promovida pela escola por meio de seu projeto intitulado New School of Thought Institute, ou simplesmente #nsti como eles mesmos dizem, em fevereiro de 2020, no qual estive presente nos 3 dias.

Eu, como atuo com estudos sobre futuros – ou futures studies – e muito voltada para a compreensão dos cenários possíveis nesta próxima década em torno do desenvolvimento das pessoas para os trabalhos e estilo de vida que estão por vir, não me surpreendi com a resposta da jovem Bianca*de 15 anos – pelo contrário, me alegrei com sua percepção tão afiada com os novos tempos. Me alegrei também pela naturalidade com que ela trouxe a frase dentro de um ambiente onde muitos poderiam questionar, ao menos em suas mentes: “Mas para o que a Avenues tem preparado os jovens em idade pré-vestibular, raios?”.

Congruência entre discursos e práticas: liderança e aceitação de falhas é um estado de espírito na Avenues School

O que me chamou a atenção, em mais uma evidência enquanto estive lá, é que conforme o papo na sala se desenrolava entre Bianca e os participantes da conferência, notei mais uma vez a congruência no discurso da liderança da Avenues e sua equipe docente e as falas e atitudes de seus alunos – e colaboradores. Posteriormente, percebi que era quase como se eu estivesse louca para pegar uma incoerência, mas não achava uma brecha.

Eu sei que tem, afinal, perfeição não existe, ainda mais quando se trata de muitos humanos envolvidos no processo. Mas aqui pensando com meus botões: será que eu não conseguia detectar incoerências talvez até pelo fato deles – todos, desde a alta liderança da escola até os alunos e colaboradores em todos os níveis – repetirem frequentemente de que o ambiente é totalmente receptivo a falhas? Afinal, esta é uma das formas mais potentes de se compreender e refletir verdadeiramente como migrar para o próximo nível, não é mesmo?

Falhas e a frustações provenientes delas geram mais reflexões do que acertos imediatos.

Assim, esta comunidade escolar modelo se desenvolveu. Algo interessante uma professora nos explicou em um dos workshops, foi a diferença entre mistake e error. Ao traduzirmos estas palavras para o português, ambas são frequentemente traduzidas como “erro”. Mas em inglês, a diferença é mais clara. O “incentivo ao erro” que propagam em toda a escola está relacionado com “mistake”, que de uma forma simples, está mais para falha. Error está mais para erro mesmo.

Erramos por desconhecimento de causa, ou seja, não nos foram apresentadas, ensinadas previamente outras formas, o que pode nos levar ao erro. Já a falha se dá em torno de algo que fomos expostos anteriormente, mas… simplesmente falhamos. Porque somos humanos – e o mais importante é aprendermos a reconhecer estas falhas, analisá-las por que ocorreram e buscar continuamente se ater aos processos análogos futuros o qual poderemos trabalhar para evitá-las cada vez mais e assim, buscarmos evoluir – enquanto humanos e enquanto sociedade, coletividade. E isso é um princípio claro no ambiente.

As lideranças e os alunos não temem as falhas. E com isso, gera-se todo um contexto de humildade e horizontalidade fora da caixa.

Aliás, isso me lembrou de mais uma frase que ouvi de outra aluna lá: “aqui, eles não nos dão limites. Eles delineiam premissas, esclarecem o que não pode ser feito. Mas o que pode? Tudo, sem limites. Desde que não ignoremos as premissas básicas”. Isso é a base para não aniquilarmos a criatividade inclusive, mais uma habilidade tão importante atualmente.

Isso tudo acaba por despertar um senso de liberdade, sem libertinagem. Isso atua diretamente no desenvolvimento de autonomia e responsabilidade. E acima de tudo, na tal liderança. A nova liderança, a liderança para esta nova década. Que demanda pouquíssimo controle, muita confiança em si e nos seus pares, muita auto e corresponsabilidade, tomada de decisões e de riscos – e consciência do que e como fazer, quando as coisas não saem bem como nossas expectativas iniciais.

Eu nunca tinha visto, estado em um ambiente com tamanha congruência, envolvendo tanta gente e diferentes interesses ao mesmo tempo.

Muito investimento em treinamento e desenvolvimento dos colaboradores. Líderes verdadeiramente facilitadores.

Para que estes princípios acima sejam plenamente compreendidos – ou quase – por todos na Avenues, fica evidente como a escola investe no desenvolvimento contínuo de seu time. É um grande benefício percebido por muitos. Ouvi isso de inúmeros professores. Todos os que eu tive a chance de conversar sobre, declararam que para atingir o nível de entendimento de tudo o que permeia por lá, neste incrível e disruptivo ambiente educador, eles próprios precisaram sair de suas zonas de conforto. Passaram por muitos desafios e reconhecem que por mais que, ao digerirem com mais calma sobre tantos novos paradigmas, fica evidente que tudo parece fazer mais sentido. Mesmo.

Bom, mas o que faz sentido quando falamos sobre novos paradigmas em torno de uma aprendizagem mais significativa? E como, por onde começar? Como amarrar tantas arestas na gestão escolar? Nossa, esse tema daria um livro por si só. Para poder concluir este artigo, mas ao mesmo tempo não deixar passar batido uma potencial reflexão em torno disso para quem quiser saber mais, sugiro a leitura deste post intitulado “Inovação na Educação Privada: Começamos por onde deveríamos?”.

Uma das coisas que mais tocou meu coração foi uma outra aluna dizer:

“Nossos professores são muito felizes.”

“Eles também têm a chance de mudar, de aprender o tempo todo. Isso traz muito vigor para o grupo”. Bom, me parece evidente que o nível de empatia e colaboração entre praticamente todos os integrantes desta comunidade escolar é altíssimo.

Estão aí mais algumas características as quais podem ser plenamente bem trabalhadas quando a equipe escolar é bem preparada e os reflexos são sentidos por todos: uma escola facilitadora da aprendizagem. O Colégio Elvira Brandão por exemplo, também sabe fazer isso muito bem. Ao visitar este colégio em São Paulo no final do ano passado, ouvi coisas parecidas de seus alunos. “Meus professores são felizes, é perceptível”. Neste caso eu também sei que o investimento em toda a equipe na preparação de líderes educacionais facilitadores da aprendizagem foi muito bem feito. Que feliz em ver os benefícios da facilitação permeando os contextos escolares.

Modelo de negócios para o futuro da educação vai muito além do olhar pedagógico

Como processo, modelagem do todo… do negócio, da educação para o futuro, do futuro da educação, do desenvolvimento humano em todos os aspectos e níveis… são pouquíssimas escolas no mundo que estão neste nível. Afinal, como mencionei no primeiro artigo sobre esta visita, isso demanda um investimento elevadíssimo. Mas porque não honrarmos que uma comunidade toda o fez e agora formarmos uma nova comunidade de estudo e análise – com ou sem integrantes da Avenues – para depurarmos o “como”, a essência de tudo isso e como democratizarmos juntos todos os benefícios que podem ser colhidos por toda a sociedade?

O futuro da educação pensada em torno do futuro do trabalho e futuro das profissões: que graduação hoje no Brasil nos prepara?

Bianca, a aluna citada no início deste artigo, complementou ao final da troca com os participantes:

“Como escolhermos uma graduação agora se não sabemos se a profissão vai existir em um futuro próximo?”

Pois é querida Bianca. Te entendo perfeitamente. Que dura decisão neste seu momento de vida.

Como temos encarado em nosso país potenciais problemas de geração de renda desta nova década? A Bianca, ainda por ter o privilégio de seu contexto, demonstra ter consciência do problema. Mas e os jovens que ainda vivem a rotina do dia-a-dia, engolidos pela avalanche de problemas presentes aos quais precisam lidar e superar e que estão longe de terem o privilégio de despertarem deste já para o que está por vir neste sentido?

Quais são as universidades em nosso país que de fato estão não apenas atualizadas, mas inclusive acompanham e preparam mentalidades adequadas para esta próxima década, como por exemplo, a Minerva School nos Estados Unidos? Estou em busca de descobrir iniciativas do tipo no Brasil. Você conhece alguma? Se sim, contribua e conte um pouco do que sabe nos comentários. É uma informação relevante para todos nós. : )

Com a transformação digital inundando nossas vidas de 2020 em diante, tudo muda. Tudo.

Ainda tenho bastante a compartilhar sobre esta imersão na Avenues. Foram muitos insights, muitos mesmo. Deixarei uma vertente mais crítica para os posts finais, mas não nego que ando meio cansada de tantas críticas “aos outros” no mundo. Ando escolhendo observar o belo, as sutilezas do bem, que nos inspiram, que muitas vezes estão bem debaixo de nosso nariz, mas por uma certa arrogância talvez – quero crer que inconsciente – nos faz pisar sobre elas em nome de nossas crenças, nossas verdades. Como se soubéssemos uma.

Bom, somos humanos. Falhamos. O importante é reconhecermos e agirmos em torno disso, certo?

Eu, certamente não sei nenhuma verdade. Apenas compartilhei minhas impressões, sob o meu ponto de vista, minhas escolhas mais recentes de como observar o mundo ao nosso redor. E buscar refletir sobre o que tem de bom que possa ser pulverizado, entendendo qual o meu papel nisso.

Workshop Líderes Educacionais Visionários, com Rosa Alegria, futurista global e diretora do Teach the Future Brasil e Cassiana Buosi, praticante de Foresight Estratégico e especialista em Futuro da Aprendizagem, com facilitação do encontro feita por Bruno Kibrit, fundador da Electi Educacional: dia 15/Jul, das 8:00 às 10:00hs!

*O nome da aluna foi alterado para que ela seja preservada, apesar de muitas pessoas presentes saberem o seu nome real.

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