Competências: Como aprender a desenvolvê-las?

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Resumo: Já estamos em 2020, e a maior parte das escolas, empresas e pessoas já perceberam a importância do desenvolvimento de competências socioemocionais tanto quanto das cognitivas, e não somente para a aprendizagem mas também para o autoconhecimento e relacionamento interpessoal. Ainda assim, nos deparamos com a dificuldade de encontrar modelos de aprendizagem realmente capazes de promover o desenvolvimento dessas competências. O que vemos nas salas de aula tradicionais não ultrapassa a exposição de conteúdos e portanto ainda são processos de aprendizagem muito defasados quando pensamos em desenvolver competências socioemocionais e cognitivas. 

Neste artigo será apresentada uma abordagem prática sobre desenvolver determinadas competências, passando pelas fases desse desenvolvimento, e oferecendo algumas propostas que podem ser feitas de forma simples e autônoma após a leitura.

Por que aprendizado por competências:

O aprendizado por competências e, especificamente, o desenvolvimento das chamadas socioemocionais é uma pauta muito discutida atualmente no campo da educação, e não por acaso. A própria BNCC – Base Nacional Comum Curricular, documento que orienta as diretrizes para educação básica, apresenta os seus objetivos de aprendizagem a partir do desenvolvimento das competências para cada um dos componentes curriculares. Além disso, o documento elege as 10 competências gerais, que aparecem de maneira transversal e são uma das principais orientações do país em termos de desenvolvimento Socioemocional.

Segundo a BNCC competência é “a mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho”. Ou seja, se o conteúdo é o saber, a competência é o saber fazer. Trata-se da capacidade que temos de colocar em prática os conhecimentos que adquirimos. 

Quando compreendemos o caráter prático que envolve a competência, percebemos que dificilmente o seu desenvolvimento poderá se dar de maneira apenas teórica. Talvez por ainda vivenciarmos salas de aula reduzidas ao formato exposto, temos hoje dificuldade em desenvolver de maneira integral as competências.

Os estágios de desenvolvimento de competências: 

Para compreender o percurso que iremos traçar ao desenvolver determinada competência, podemos recorrer ao modelo de aprendizagem originalmente apresentado pela PNL – Programação Neurolinguística. O modelo apresenta 4 estágios da aprendizagem de competências que irão auxiliar a nossa compreensão.

Os 4 estágios da aprendizagem, segundo a PNL:

Estágio 1 – Incompetência inconsciente: não conhecemos a competência que deve ser desenvolvida e, naturalmente, não a temos. 

Estágio 2 Incompetência consciente: já conhecemos a competência a ser desenvolvida, mas ainda não a desenvolvemos. Uma fase caracterizada pelas situações em que temos oportunidade de testar a competência e acumular experiências prazerosas e não prazerosas, encarando-as como oportunidade de aprendizado. 

Estágio 3 Competência consciente : já somos competentes, mas isso ainda acontece de maneira mecânica e consciente. Nesse estágio ainda precisamos nos “lembrar” de usar tal competência.

Estágio 4 – Competência inconsciente: somos competentes e já incorporamos essa competência a nossa prática, sem necessidade de nos esforçarmos para tal. É parte intrínseca em nossa prática.

Propostas práticas para desenvolver as competências:

Aplicando a ideia dos 4 estágios de aprendizado, listamos algumas propostas de ações e práticas, não cronológicas ou lineares, que podem contribuir para o desenvolvimento das competências socioemocionais e cognitivas.  

Recorte da competência (Estágio 1)

O primeiro passo é escolher a competência a ser desenvolvida. A competência, pela sua própria definição, é um conhecimento que colocamos em prática. Assim, faz sentido escolher desenvolver uma competência que esteja contextualizada e conectada a uma atividade importante do seu dia a dia. 

Modelagem de competências (Estágio 2)

A modelagem é um conceito que também vem da PNL e consiste em escolhermos alguém que possui a competência que desejamos desenvolver e observar a pessoa em ação para tentar decifrar como ela faz o que faz. Para isso podemos observar e registrar:

  • O que exatamente essa pessoa faz: Na prática o quais são efetivamente os comportamentos dela para exercer essa competência? Exemplo: Algum comportamento específico, expressões faciais, linguagem corporal, rituais, etc. 
  • Por que ela faz assim: Qual é intenção positiva que ela tem ao exercer essa competência? Qual o motivo que essa pessoa tem para valorizar e exercer esses comportamentos? Qual é o jeito de pensar dessa pessoa sobre essa essa competência? 
  • Reflexão pessoal. De tudo que você observou da outra pessoa, quais motivações você parece ter em comum com ela? Quais comportamentos você gostaria de reproduzir? Que outras motivações vc tem e que são ainda mais próprias suas? Que outros comportamentos você pode exercer a partir das suas próprias características?

Treinar para fortalecer a “Musculatura”  (Estágio 2 e 3)

Nós estamos acostumados a aprender por partes e de maneira focada. Assim, um caminho possível para começar a desenvolver a competência desejada pode ser escolher os espaços de teste. Ou seja, eleger quais serão os ambientes seguros, os momentos específicos em que nos sentimos confortáveis para experimentar essa competência, aliado a um recorte específico desta competência. 

  • Exemplo 1: Com objetivo de tornar-se mais organizado, um estudante do Ensino Fundamental – anos finais – poderia escolher, organizar “apenas” a sua agenda, durante semana ou um mês. No mês seguinte, pode fazer o mesmo, mas com objetivo de organizar as roupas no armário. 
  • Exemplo 2: Com objetivo de desenvolver a sua empatia, um educador poderia escolher fazer o exercício de escuta ativa nas aulas para o quinto ano, ou com foco nas reuniões pedagógicas, ou em todas as vezes que determinada pessoa falar. 

Naturalmente a competência que será treinada em um ambiente específico, começa a transbordar para os outros aspectos da vida.

Avaliação e registro – Estágio 4

Por último, a ideia de manter algum ritual de avaliação e algum instrumento de registro sobre a sua evolução no desenvolvimento da competência ao longo de cada semana é um balizador importante para reconhecer aquilo que já foi conquistado e também o que fazer para acelerar o processo de aprendizagem sobre essa competência. O ritual e registro podem ser simples como um bloco de notas, uma planilha ou a gravação de um áudio. O mais importante é que respeite a periodicidade estabelecida. 

Ao longo do tempo, determinados aprendizados vão tornando-se rotineiros e perdendo a necessidade de serem registrados. Neste momento atingimos o estágio 4 de aprendizagem pois a competência já está incorporada a nós e tornou-se óbvia. É nesse momento que podemos focar os registros nos outros aprendizados que ainda não estão tão consolidados.

Desenvolver competências exige também a mudança de rotina. 

Certamente, o tipo de dedicação e as sugestões que mencionamos acima exigem engajamento, organização e disciplina para colocar em prática algo que ainda não estamos acostumados a aprender. 

A aprendizagem tradicional nos educou para uma ação passiva e para sermos apenas receptores de conhecimento. Enquanto isso, o desenvolvimento de competências, pelo seu caráter prático, nos exige protagonismo e participação ativa em todo processo de aprendizagem. Talvez a melhor competência para começar desenvolver seja justamente essa: Aprender a aprender.

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