Educação pelo esporte e nas alturas

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Educação nas alturas ou Competências socioemocionais que aprendi na escalada.

Hoje vou falar sobre aprendizados que podem surgir a partir da perspectiva da educação pelo esporte. 

Irei falar de aprendizados pessoais que tive em um tipo de esporte, a escalada, e à partir deles espero que possamos ampliar nosso entendimento de desenvolvimento humano, saindo de uma visão escolar e centrada na cabeça, para algo integral, ou seja, de corpo inteiro, sensível e conectado com o mundo em que vivemos.

Não vou falar sobre métodos ou ferramentas específicas, uma vez que existem pessoas incríveis que já fazem isso e que vale muito a pena conhecer, como o Instituto Família Barrichello, que construiu uma metodologia incrível para promover o desenvolvimento humano por meio da educação pelo esporte, ouça o nosso podcast com o Diretor do Instituto William Boudakian.

Aprendizados:

Vulnerabilidade, o medo e a coragem

Vulnerabilidade tem sido um tema muito recorrente nesse período de isolamento social e pandemia, apesar de termos muitos jeitos de se falar o que é a vulnerabilidade, gosto de pensar em um que contradiz um pouco a imagem construída socialmente de que demonstrar os sentimentos é sinal de fraqueza. 

Para mim uma das formas de explicar a vulnerabilidade é dizer que é o ato de se permitir sentir. Daí um pouco da ideia do ser humano inteiro, pois integra pensamentos, comportamentos e sentimentos. 

Um dos jeitos de se esconder dos sentimentos é fugir deles, ignorá-los ou fingir que não existem, mas na escalada tenho uma oportunidade de me conectar com alguns sentimentos bem claros, impossíveis de se ignorar, o que me permitiu me entender em determinadas situações e pensar em possibilidade de como reagir a elas. 

Nem sempre reconhecemos nossos medos ou suas origens (em parte das vezes isso acontece quando estamos fugindo deles), mas na escalada os medos são bem básicos, humanos e óbvios a princípio: medo de cair, medo de se machucar e em camadas mais profundas não tão óbvias assim: medo de se frustrar, medo de não conseguir, medo de piorar a performance, etc.

Entrar em contato com sentimento de forma consciente e sensível é o primeiro passo para uma ação também consciente e sensível. Nesse processo compreendi que aceitar que tenho medo e decidir ir com medo mesmo foi muito importante para extrapolar resultados, desencobrir outros medos escondidos e ter a coragem para agir mesmo sem a certeza do resultado.

Outro momento clássico é quando estamos subindo a pedra, principalmente para escaladores mais iniciantes, como eu. O desejo é que para subir um membro (mão ou pé), tenhamos os outros três bem fixos e apoiados, assim temos uma estabilidade que praticamente garante que iremos subir sem problemas, mas quando as vias (caminhos que subimos na pedra) vão ficando mais complicadas, fica mais difícil ter esses três apoios e cada vez mais temos que arriscar, ficar em dois suportes ou até em uma única base para fazer o movimento seguinte. Novamente nos tornamos vulneráveis e corajosos de agir, aceitando um risco planejado e sem ter a certeza do resultado.

Coragem como um hábito

Ao se colocar em situações que requerem coragem com muita frequência, vamos aprendendo e ganhando mais habilidade em enfrentar os desafios, abraçar e superar os medos e se vulnerabilizar em todo esse processo. Isso significa que entramos em um tipo de fluxo em que o corpo e a mente respondem com mais consciência, mais depressa e com mais solidez aos desafios que se apresentam. 

Nem de longe quero dizer que deixamos de sentir medo, pelo menos, eu continuo sentindo medo toda vez que entro em uma nova via que não conheço ou que sei que é desafiadora para minha capacidade técnica e mental. 

O que trago é que esses medos tão concretos e objetivos me trouxeram a grande oportunidade de pensar o que fazer com isso, como eu lido com o medo e como até mesmo uso ele de forma propositiva. 

Em outras palavras, a partir do reconhecimento de que sinto medo e do ato de conscientemente escolher o que fazer com isso acabo tendo como resultado uma conduta mais corajosa para com os desafios colocados pelo universo e que fazer isso com frequência me ajuda a ter coragem em vários outros campos da vida. 

Respostas em momentos de crise

Um momento muito especial é quando estamos subindo uma pedra e existe um risco de cair até o ponto anterior em que foi presa a corda. A ideia é ir subindo e prendendo a corda, quanto mais perto você cair do ponto onde a corda está presa, menor o tamanho da queda. Na escalada o tamanho da queda é também chamado de exposição. 

Em alguns momentos quando sentimos que não encontramos o caminho e que nossas forças estão acabando para ficar preso, achamos que iremos cair e muitas vezes estamos muito expostos.

Esse é um momento de bastante adrenalina, onde passamos a psicossomatizar a queda, coração acelera, braços podem ficar mais fracos e nossa mente muitas vezes desfoca ou até mesmo acelera. Por um lado é uma delícia, por outro lado é um momento em que temos que decidir o que fazer em espaço de tempo muito curto. Se jogar para fora da pedra, tentar descer um pouco antes de se soltar, encontrar outro lugar para se segurar, enfim, surge uma crise e nossa resposta precisa ser rápida. 

A resposta rápida é necessária, mas não necessariamente quer dizer que precisa ser ruim, aprendi que a melhor resposta rápida vem de uma intuição do que deve ser feito e esse sentimento subjetivo é também a representação de toda a nossa experiência em situações semelhantes.

Sendo assim confiar nas respostas que surgem sem entendermos bem de onde, é confiar também na nossa experiência e história, é sentir o que fazer com todo o corpo e fazer, apesar da luta do cérebro em tentar calcular todas as possibilidades em um comitê interno de crise que se arma na sala de gestão de crises das nossas cabeças.

Atenção aos detalhes do que realmente é importante

Muitas vezes acabo trazendo um olhar generalista para diversos campos da vida pessoal e profissional. Imagino que isso nasce do fato de eu gostar de conhecer diversas coisas com intensidade mas sem muita profundidade, ao invés de me aprofundar detalhadamente em um tema ou até mesmo processo. 

Na escalada existem alguns procedimentos que precisam ser realizados durante diversos momentos, são nós, mosquetões, freios, etc. Tudo precisa ser realizado, não podemos pular etapas ou deixar de fazer algo porque “no final dá tudo certo” ou “a gente ajusta no caminho”. 

Aprendi que em alguns momentos os detalhes são vitais e que não podem deixar de ser realizados, na escalada o risco é evidente. Nesses momentos aprendi a desfocar do resto, nada mais importa. A presença, o foco e atenção a cada detalhe se tornam essenciais.

Confiança e energia do outro como linguagem e potência

Quando estamos escalando uma pessoa sobe na pedra enquanto outra pessoa faz a segurança na base da pedra. Chamamos essa segunda pessoa de Seg. 

Diante de um desafio que requer coragem, de um risco real de algo dar errado, é muito importante saber que parte das variáveis que não podemos controlar estão sendo cuidadas por alguém em quem confiamos. 

Nesse esporte, literalmente, colocamos nossas vidas nas mãos de outra pessoa, que precisa estar atenta e conectada com tudo o que está acontecendo na via do escalador para responder da forma mais adequada em cada situação, seja dando corda e liberdade para que o escalador prossiga na sua tentativa, seja puxando a corda rapidamente diante de uma queda eminente trazendo segurança e mitigando o risco de impactos nocivos.

Outra atribuição do Seg é de estimular e transmitir energia para o escalador, por isso é tão comum ver o Seg gritando e celebrando com o escalador. O Seg não é apenas um fator do processo do outro, é sim parte do processo de ambos, ele realmente sente, vibra, tem medo e ansiedade e isso é transmitido de forma muito clara e direta. 

Cria-se uma conexão legítima quando ambos entendem que a conquista é coletiva, mesmo que exista um protagonismo maior do escalador, o Seg faz parte do processo. Ainda mais sabendo que na próxima entrada os papéis irão se inverter. 

A confiança precisa existir logo de cara, mas ela cresce e se fortalece a partir do acúmulo de momentos e da exposição da vulnerabilidade recíproca da dupla com o passar do tempo.

Respeito pela natureza, por si e pela comunidade 

Contemplar e estar na natureza são momentos muito caros para mim, entendo que é uma possibilidade de me reconectar com minha mais pura essência. Ao estar perto da grandiosidade de uma pedra de 15m ou até de 300m me sinto pequeno e grande ao mesmo tempo, me sinto pleno. 

Na escalada, bem como em diversos esportes realizados na natureza, existe uma cultura muito positiva de respeitar a natureza e os espaços por onde passamos, seja recolhendo o lixo, não incomodando vizinhos com barulho, ou até não escalando uma via porque tem um ninho de pássaro no caminho.

Basicamente, aprendi novas formas de respeitar a natureza, a pedra e meus próprios limites. Ouço quando meu corpo fala comigo, ouço quando sinto algo, ouço os outros escaladores e ouço a natureza e seus tempos.

Diversão como meio da sustentabilidade e Liberdade

Um aprendizado bem bacana é: um dos jeitos mais legais de se garantir a sustentabilidade de um projeto é tornar ele um momento divertido. Já tentei me exercitar de várias formas e encontrei na escalada um jeito muito divertido de ganhar equilíbrio, força muscular e resistência. 

Acredito que é divertido por muitos motivos diferentes, pela adrenalina, pela conquista, pelo ambiente, pela companhia, pela natureza e, finalmente, pela liberdade do movimento

Quem aqui nunca escutou, “desce daí criança!” quando subiu um muro ou escalou algum móvel de casa. Essa limitação social e o medo cria no nosso corpo uma limitação também de movimento e expressão. Obviamente não estou dizendo que devemos deixar as crianças escalarem prédios, mas quando vejo uma criança escalando um obstáculo ou uma pedra (com equipamento de segurança), percebo uma naturalidade no movimento que vamos enrijecendo ao crescer e de alguma forma formatando (colocados em fôrmas) nosso jeito de ser e estar no mundo.

Além de que, obviamente, todos os outros aprendizados socioemocionais que trouxe nesse artigo, aliás são tanto paralelos com educação socioemocional e com a vida em geral que nem me arrisco a trazer elas aqui, mas queria saber de vocês, que paralelos vocês enxergaram na vida ou na escola de vocês?

Vamos terminar com um combinado? Se você leu e curtiu, me avisa? Comenta ou me manda mensagem mesmo, quero escrever sobre outras paixões e suas relações com desenvolvimento das competências socioemocionais, mas quero escutar de vocês se faz sentido.

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