A gestão da escola do futuro e o que fazer agora: mais futures thinking, menos design thinking

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Muitos dos conceitos que surgiram nesta última década, que contribuíram na gestão educacional, como o design thinking e canvas para modelo de negócios por exemplo, foram muito úteis. A escola do futuro agora demanda futures thinking, que diferentemente de outras abordagens mais disseminadas que atendem e resolvem problemas do presente em meio a um ambiente relativamente estável, o pensamento antecipatório nos ajuda a lidar melhor com as incertezas.

Para melhores tomadas de decisões em momentos altamente instáveis, existem conceitos, ferramentas, metodologias mais apropriadas, como por exemplo a aplicação de foresight estratégico – uma das principais disciplinas dentro de estudos e pensamentos sobre futuros – ou a Teoria U, de Otto Scharmer. Entender sobre aspectos da curva da mudança também ajuda.

Foresight é algo que fazemos naturalmente, como seres humanos: uma capacidade intrínseca em todos nós sobre pensarmos no futuro. Outros animais não têm a compreensão do tempo, por exemplo.

Foresight estratégico é uma disciplina na qual aplicamos diversas metodologias – são muitas – para que possamos vislumbrar cenários futuros possíveis e desta forma tomarmos melhores decisões no presente. Engloba uma visão prá lá de sistêmica, onde por exemplo, no ambiente da educação, reunimos dados que vão muito além deste setor. Trabalhamos analisando grandes pilares, como questões sociais, tecnológicas, econômicas, ambientais e políticas.

Em um encontro recente promovido pela Electi e pela rede Fractal, alguns gestores educacionais já puderam compreender melhor isso, onde houve uma troca interessante entre as partes em torno da liderança em uma escola que ainda não existe.

Novos modelos para a educação do futuro: por onde começar?

Gostaria de compartilhar com você um pouco do que tenho observado recentemente no setor da educação e aproveito para trazer algumas dicas para te ajudar a refletir melhor sobre a Escola do Futuro que você acredita ser possível criar. Use-as se fizer sentido – e se não fizer, ao menos proponho que faça uma reflexão cuidadosa sobre cada um dos grupos que abordarei abaixo, que compõem toda uma comunidade escolar.

Como profissional de foresight, é importante reforçar que não fazemos previsões. Ninguém – ninguém – pode afirmar com precisão o que está por vir. Atuamos com análises preditivas, pautadas não apenas em dados, mas também com muita intuição. E nunca sozinhos, sempre atuamos com inteligência coletiva.

Neste artigo, as dicas são pautadas em uso de pensamento antecipatório – uma habilidade que estará cada vez mais em voga nos próximos anos. Ao aprimorarmos o nosso pensamento antecipatório, uma consequência natural é termos melhores insights no presente para as decisões que precisam ser tomadas já – mas que refletirão nos resultados de longo prazo, não apenas nos de curto prazo.

Alto impacto em toda a minha comunidade escolar: como conseguir pensar na escola do futuro?

Incêndios precisam ser apagados, sem dúvida. Mas acontece que quando um incêndio sai de nosso controle, aqueles designados a dar rumo a toda a comunidade – ou seja, diretores executivos ou donos de escolas – precisam manter a calma, caso contrário o risco na tomada de decisões aumentarão significantemente. Não á toa, adivinhe qual o primeiro grupo dentro da comunidade que precisa se cuidar?

Lideranças educacionais: aceite a vulnerabilidade. Por mais que doa. Mas é libertador.

Muitos líderes, parecem que foram abduzidos, sequestrados. Espero que não seja o seu caso. Não há a possibilidade de uma forte liderança superar o momento se esta não aceitar a sua própria vulnerabilidade. Seja do ponto de vista pessoal – e isso envolve perceber melhor seu ego e como tem cuidado dele tanto para você mesmo, como na relação com o mundo – mas também envolve a aceitação que do ponto de vista dos negócios, você não é o/a salvador(a) da pátria.

O setor da educação por si só está em plena reinvenção. E muitas das grandes sacadas para uma educação verdadeiramente transformadora possivelmente não virá de grandes especialistas da educação formal.

Atente-se ao que vem ocorrendo em tantos outros setores que já estão sendo disruptados nos últimos 10 anos. A educação é apenas um setor que resistiu melhor na última década sem uma grande transformação em massa. Mas agora, chegou sua hora.

Ao se libertar de carregar um grande fardo nas costas, você não apenas se vê leve e aliviado(a), mas terá muito mais condições de ter melhores insights para as melhores tomadas de decisões – no agora.

Equipe escolar, docentes, coordenadores: já perguntou a eles o que pensam sobre o futuro da educação?

Cuide de sua equipe com muito afinco, agora mais do que nunca. Existe uma imensa inteligência coletiva ao dispor de toda a sua comunidade escolar, mas para acessá-la e costurar bem todas estas sabedorias, você precisa se dedicar a ela. Sessões de brainstorms não representam nem 5% de toda a potencialidade do grupo.

Outra dica: se comando e controle já estavam em baixa, agora então são mais inúteis ainda. Definitivamente não há espaço para esta cultura dentro das organizações do futuro. Confiança é a palavra da vez.

Pais e famílias: ajude-os para além de suas dores declaradas no momento.

Acolhê-los sim… mas também ajude-os a compreender melhor que o que esperam da educação do seu filho está pautado em um mundo que não existe mais. E eles precisam confiar na equipe da escola, afinal, estes são os especialistas na área. Mas isso só vale para um equipe escolar realmente antenada com o novo mundo. Se não for o caso da sua, mexa-se. E rápido.

Parceiros e Fornecedores: menos trocas financeiras e mais colaboração real

Em vez de olhar para este grupo como um custo (necessário ou não), já pensou em extrair o máximo de valor juntando-se a eles? Ninguém e nem nenhuma organização sabe de tudo sozinha. A sabedoria está presente no coletivo. E seus parceiros e fornecedores já compreendem o seu negócio, seus valores, sua cultura – assim como tem informações interessantes sobre boa parte do ecossistema. Convide-os para estarem mais próximos. Todos só tem a ganhar!

Alunos: muitos inverteram a lógica! Aliás, neste mundo em que vivemos, existe lógica para tudo?

Nessa cadeia de eventos, são os que viriam por último. Sabe por quê? Porque de uma forma geral, praticamente tudo o que a grande maioria das lideranças educacionais fez até este momento – considerando escolas que se atualizaram minimamente até 2019 – foi muito mais voltado para os estudantes do que para os demais stakeholders. Estudantes no centro da aprendizagem, novas metodologias, acolhimento socioemocional, entre tantas outras iniciativas.

Sem dúvida todas estas iniciativas também impactaram em todos os stakeholders, mas o grande discurso foi muito centrado na preocupação com o aluno. E isso não foi errado, não atuo com certo e errado há tempos em minha vida. Simplesmente foi uma escolhha. Havia uma necessidade mais imediata, do ponto de vista mercadológico inclusive.

Acontece que de agora em diante, para que as escolas privadas da educação básica continuem evoluindo no que reflete diretamente nos alunos, ela precisa dedicar muito mais tempo cuidando verdadeiramente dos demais grupos que compõe uma comunidade escolar, caso contrário, o seu ecossistema estará muito mais fragilizado para superar tudo o que vem por aí nos próximos anos.

Melhor hora para exercitar o “mais nós, menos eu”. “Eu” aqui = a escola como uma personalidade também.

Conhecimento difere de habilidade que difere de atitude. Sobre colaboração real, em qual destes estágios você e sua equipe se encontram? Além de sua própria auto-avaliação, vale também checar com seus pares e todos impactados pela cultura de sua organização. Não busque justificar respostas que talvez não lhe agradem tanto. Em vez disso, invista a mesma energia e tempo em evolução.

Um futuro da educação desejável é possível de ser perseguido. Mas também depende de você e do quanto está disposto(a) a investir nele. No fim, sabemos que tudo vale a pena quando a alma não é pequena, não é mesmo?

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Workshop Líderes Educacionais Visionários, com Rosa Alegria, futurista global e diretora do Teach the Future Brasil e Cassiana Buosi, praticante de Foresight Estratégico e especialista em Futuro da Aprendizagem, com facilitação do encontro feita por Bruno Kibrit, fundador da Electi Educacional: dia 15/Jul, das 8:00 às 10:00hs – aproveite e já faça sua pré-inscrição!

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