O poder da escuta ativa

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“Sempre vejo anúncios de oratória. Nunca vi anúncios de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir!”. Rubem Alves já nos alertava sobre um dos grandes desafios da comunicação da nossa sociedade, e principalmente do nosso sistema de aprendizagem. A nossa capacidade e vontade de escutar com qualidade.

Os 3 níveis de Escuta

Existem muitos conceitos que falam sobre a escuta. A Comunicação não Violenta, de Marshall Rosenberg, a Teoria U, de Otto Scharmer, entre outros. Na Electi escolhemos simplificar a ideia de escuta em 3 níveis diferentes. O primeiro nível é a escuta com ruído. Aqui trazemos a  idéia de que elementos internos e externos podem impactar a mensagem entre emissor e receptor. São exemplos de ruídos, barulhos externos como sons da rua, de conversas paralelas, som do ar condicionado, etc. e barulhos internos como fome, pensamento em outro lugar, clima e etc 

O segundo nível é a escuta com julgamento. Agora falamos daquela escuta em que enquanto escutamos, estamos o tempo todo atribuindo algum juízo de valor ao que está sendo dito, antes mesmo de que a pessoa termine o que está falando, ficamos pensando com nossos botões, concordo com isso, discordo daquilo, vou responder isso ou aquilo. Outra situação comum é quando quem escuta interrompe a história de quem fala trazendo a sua história. Por exemplo, quando estou contando que fui fazer uma viagem e sou interrompido com “eu também adoro viajar, quando viajo surfo e amo praia bla bla bla…”.

O terceiro nível e o foco desse artigo é a escuta ativa, ou genuína, ou viva (tem muitos nomes). Na Electi gostamos de chamar de escuta fofinha. Essa escuta pressupõe ação e se diferencia de uma escuta passiva pois demanda energia. Adicionamos esse rótulo para diferenciar essa escuta que vemos sendo realizada no dia a dia em que estamos ouvindo, mas não estamos realmente atentos, abertos e interessados no que a outra pessoa está trazendo. 

Escuta ativa na educação

Algo que me chama muito a atenção é que a grande maioria das pessoas e educadores que fizeram formação da Electi acreditavam que eram muito bons ou excelentes em escutar e ao final da formação adquirem uma compreensão que melhoraram muito a qualidade dessa habilidade e que não é tão trivial fazer uma escuta ativa, na realidade demanda um certo nível de desconstrução de todo um sistema educativo.

Eu fui formado, assim como grande parte dos educadores de hoje, em escolas e universidades em que o professor estava sempre no centro das atenções e como detentor e curador do conhecimento tinha a responsabilidade de transmitir o conteúdo para seus alunos, que absorviam, memorizavam e reproduziam esse conhecimentos em provas que avaliavam algumas capacidades de memorização e resolução de problemas lógicos. 

Estudante no centro exige escuta ativa

Esse modelo já está em check, porém, sem perceber, educadores e lideranças das escolas que buscam inovar, acabam reproduzindo esse modelo, só que com outra roupagem. Ao invés de trazer o conteúdo pronto, trazem o formato pronto com um destino fechado pensado para cada aula e trilha, não permitindo que os insumos que surgem dos educandos alterem a rota do planejamento ou do processo “inovador” proposto.

Quando falamos de escuta ativa, estamos falando também que o que está sendo trazido pelo educando é interessante e relevante, sendo assim, sua opinião é parte do processo pedagógico. Isso quer dizer que dessa escuta nasce algo além de uma relação mais profunda e sincera entre educador e educando, nasce também a responsabilidade de transformar o processo de aprendizagem à partir do que surge dessa escuta. Temas de interesse dos educandos, sentimentos, formato da aula e outras questões levantadas pelos educandos se tornam a nova matéria-prima desses encontros.

Na Electi realmente focamos nas pessoas, que são quem vão utilizar essas inovações e tecnologias para efetivamente colocar o estudante no centro do processo. Uma fala de uma educadora de um colégio parceiro resume bem esse desafio, ela diz que “para colocar o estudante no centro, nós temos que sair dele”.

E como fazer essa transformação? 

É aqui que entra a escuta, pois não conheço uma resposta simples e única para isso. Acredito que a mudança requer uma compreensão de toda comunidade escolar e que precisa ser construída coletivamente. E se não posso dizer como fazer essa transformação posso, audaciosamente, sugerir como começar: Escute (de forma ativa) seus estudantes, seus colegas, os responsáveis pelos estudantes e escute também aquilo que surge dentro de si, à partir desse maravilhoso sistema de trocas de afetos.

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