Futuro da Educação e a inversão da lógica: tememos o quê?

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O modelo atual de educação ainda segue padrões dominantes do contexto de nossa sociedade, cada dia mais questionados, como por exemplo, a carga horária média de um(a) profissional de classe média no Brasil e um horário comercial fixo. Se todo o contexto está em reconstrução, como o futuro da educação tem sido imaginado pelas lideranças educacionais considerando um olhar mais sistêmico? 

Atuo há alguns anos com o “resgate” do SER humano. E diversos índices críticos mundiais reforçam o quanto estamos em crise, a começar pelos índices de depressão e suicídio que tem impactado pessoas de todos os grupos etários e classes sociais. O que deveria acontecer ao nosso entorno para que a educação do futuro contribua ainda mais na reversão deste contexto em que nos encontramos?

Só há meios de tomarmos as melhores decisões hoje, que podem se transformar em grandes legados, por meio de nossa inteligência antecipatória. Algo fundamental hoje, especialmente para líderes educacionais.

Em estudos sobre futuros, algumas linhas, como a do Institute for the Future nos EUA, falam sobre nos aprimorarmos tomando como base alguns hindsights (decisões e consequências do passado), experienciarmos com presença os insights do hoje e com isso, aprimorarmos nossas habilidades para o foresight, ou seja, prospectarmos o futuro que desejamos ver e viver e começar a agir na construção dele desde já.

Que futuro da educação é esse se hoje ainda lidamos com problemas pautados em soluções do passado?

Digitalizar conteúdo e transmitir por meio de canais digitais não é nada novo. O que a grande maioria das escolas privadas fizeram assim que a quarentena foi anunciada foi buscar uma solução já existente e amplamente utilizada por muitos do setor, especialmente quem atua com EAD.

Ou seja, o cenário e contexto que continuamos, do ponto de vista da essência, a meu ver, continua resumido ao esquema abaixo:

Me parece que existe uma divergência tremenda entre o que educadores “raiz” pensam e o que empresários do setor “precisam”. E no ano em que vivemos, 2020, esta divergência, que já vem se estendendo ao longo de mais de uma década, resolveu gritar. E muito alto. Essa dor vem de um paradoxo, onde a essência da educação e a essência de um negócio no setor de educação parecem colidir. Me refiro aqui apenas a educação privada. A educação pública enfrenta outros paradoxos.

Que legado queremos deixar como gestores e líderes educacionais?

Essa é a hora, mais do que nunca. Se educar é desenvolver o ser humano para a vida e se um negócio como uma escola privada depende de clientes que pagam pelos seus serviços, como equilibrar melhor os pratos?

Por conta do sistema que ainda vivemos e aceitamos, de forma mais consciente ou não, o que mais importa após os 10 anos de idade de uma criança é saber a probabilidade de ela entrar em uma excelente faculdade para se tornar alguém “na vida”, ao menos ainda para a grande maioria dos adultos de hoje – sejam pais ou gestores da educação, que buscam atender as expectativas de seus clientes. Natural.

Natural? Mesmo? A que serve a educação? Não adianta mascararmos, acreditarmos que educadores profissionais e na essência, são as pessoas mais indicadas para assegurar excelência nestes dois aspectos. Isso é desumano.

Primeiro porque eles são bem distintos como objetivos: desenvolvimento integral do ser X passar no vestibular. Segundo porque em uma carga horária escolar, sem considerar períodos integrais, nem há tempo para atuar na excelência nas duas vertentes da questão. Nem na preparação dos alunos e nem na preparação de toda a equipe de profissionais da escola, em todos os níveis.

E o que temos visto por aí são cada vez mais escolas que começam a fazer promessas de que cuidam muito bem dos dois aspectos. Só apenas um ciclo completo de uma nova geração passando por estes sistemas milagrosos é que comprovarão a eficácia desta “doce” promessa. Se é que “comprovarão” e a que custo.

E que exemplo seria este, inclusive, quando endossamos isso coletivamente? O futuro da educação está em nossas mãos – hoje.

Para aqueles gestores educacionais, assim como pais de alunos, que já estão começando a se dar conta de que a escola por si só não dará conta do recado e que esta necessita do suporte não apenas dos pais, mas de todo um ecossistema, deixo dois possíveis caminhos para iniciarmos a nossa reflexão. Um deles está neste artigo que escrevi ao me “implantar” na Avenues School. Um outro é o esquema 1 acima, repensado. E se…

E se invertêssemos, revirássemos, desconstruíssimos a lógica dominante? O que teríamos a perder?

Bom, este assunto é para lá de intrigante, denso e longo. Por ora, vou apenas trazer um esboço de um futuro da educação imaginado por mim, ainda mais em meio a observações e reflexões profundas sobre eu mesma – como mãe e educadora, sobre relações, sobre o mundo e seus problemas atuais. Imaginar é o primeiro passo para que grandes transformações aconteçam. Esse é o futuro no qual eu trabalho todos os dias para contribuir em sua construção:

Hoje, como multi-empreendedora pós-digital, contribuo inclusive no resgate de adultos crescidos em torno do esquema do slide 1. Praticamente, reavivando tais pessoas, que quando acordam, descobrem que a vida era muito mais bela e simples do que até então imaginavam. E que sim, é possível viver – e não simplesmente sobreviver – em nossas selvas de pedras. E viver, não pode ser apenas ter, ter, ter. Inclusive diplomas.

Então, porque o sistema, especialmente o da educação, demora tanto a enxergar caminhos mais sustentáveis para a humanidade e trazer isso para a ação o quanto antes?

Educação por projetos é incrível, mas continuaria não me fazendo gostar de física.”

Eu sempre tive horror a física. Até o primeiro ano da faculdade – o qual já tinha visto no programa que teria uma disciplina por um ano inteiro de… física!! Mas que cargas d’água numa faculdade de Design eu teria que entender de física?

A Escola do Futuro: a que se adequa ao potencial e propósito de cada SER

Quando minhas aulas na faculdade começaram e logo na primeira aula o professor de física já trouxe aqueles esquemáticos que eu achava chatos prá caramba, quase quis morrer. Mas em menos de 5 minutos de aula ele foi mudando o storytelling e dizendo que teríamos que criar ali, individualmente, uma nova embalagem de 200ml para um perfume líder de mercado na época.

Assim que associei que a única forma de eu concluir a minha arte era usando a fórmula dos primeiros 5 minutos, a física simplesmente parecia que tinha deixado de ser uma bruxa para se tornar uma gênia da lâmpada.E hoje, estudando muito desde o ano passado sobre a consciência por meio da física quântica, me vejo após os meus 40 anos muito, muito em paz com a matéria que sempre achei a mais chata do planeta.

Será que estudar sobre física, num contexto de um projeto bacana, mas que não estivesse diretamente conectado com meus propósitos de vida, teria a capacidade de cumprir com tamanha transformação e significação para mim?”

Pois é. Desenvolvimento individualizado é algo custoso. Mas e se… todos em nosso ecossistema readquirissem as suas co-responsabilidades em torno de tudo o que vem sendo cada vez mais terceirizado? O dinheiro compra tudo?

Qual seria o real problema de invertermos a lógica?

Tais problemas estariam mais relacionados ao “sistema” ou ao verdadeiro desenvolvimento do ser para que se torne íntegro, autônomo e feliz?

Quando tratamos de estudos de futuros, o mais importante é a nossa capacidade de imaginarmos futuros que sonhamos. Profissionais sérios de futuros não fazem previsões, o futuro é imprevisível. Apenas o imaginamos, pois é na potência de nossas imaginações que são tomadas as decisões do hoje para um caminho de um grande legado.

E você, na liderança educacional de seu colégio ou escola? Tem trabalhado hoje para deixar um grande legado com seu time e pares ou tem trabalhado para apagar incêndios? Apagar fogo, às vezes, é necessário, todos nós sabemos.

Mas se de alguma forma esta ação tem tomado mais do que 10% do tempo da equipe nos últimos anos, talvez alguma coisa já vinha dando sinais há tempos. O que você e sua equipe poderiam aprender com estes hindsights? Em que construção de futuro desejado para a educação estão trabalhando – agora?

Se este artigo fez sentido para você ou pode fazer para alguém que conhece, compartilhe-o! Uma inteligência coletiva contribuindo na imaginação de um futuro melhor no ambiente da educação pode acelerar bastante o processo de resgatarmos, em primeiro plano, o SerHumano no contexto escolar.

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