Gestores educacionais: Sabemos (o) que não sabemos?

Cabeças com linhas.
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Muitas vezes, no imaginário coletivo, a escola, casa do saber, é o responsável por transmitir à nova geração todo o conhecimento e herança cultural que a humanidade já construiu. Ao mesmo tempo, o mundo contemporâneo desafia o papel desse processo de aprendizagem, e instiga a escola a adotar uma nova concepção quanto a seus objetivos. Ou seja, o mundo de hoje, recheado de novas tecnologias e tendências, faz a escola repensar o que queremos transmitir às novas gerações assim como a maneira de fazê-lo. Busca-se, então, desenvolver com os estudantes as competências capazes de criar um futuro desejado e mais saudável para sociedade como um todo. Assim, pouco a pouco, essas tais competências e habilidades, tanto cognitivas, quanto socioemocionais, passam a ocupar a agenda das mais conceituadas escolas do Brasil e do mundo. 

Mesmo diante desse cenário em que tantas novidades chegam às escolas, algumas lideranças e profissionais do setor tendem a acreditar que já sabem e dominam competências, habilidades e atitudes que são próprias desse contexto escolar contemporâneo. Neste artigo apresentamos algumas reflexões em torno destas questões que Electi tem vivenciado na prática.

O que será que não sabemos? O quão precisa anda a nossa própria auto-avaliação como líderes educacionais?

Muitas vezes, ao confrontarmos as novas demanda da educação com a trajetória de vida dos nossos líderes e educadores no contexto escolar, vemos um abismo difícil de ser reparado em um horizonte próximo.

Isso por que, ainda que de forma generalista, falamos hoje de um profissional que estudou mais de 15 anos em uma escola pautada pela revolução industrial, se graduou em uma universidade com a mesma lógica – onde aprendeu a replicar este modelo – e, em sua imensa maioria, entrou para trabalhar em sala de aula com objetivos, métodos e ferramentas voltados para a própria oralidade, controle e conteúdo. 

Para complicar ainda mais o papel deste educador, usualmente a continuidade dessa trajetória não oferece um acompanhamento qualificado do seu trabalho, formação continuada, observação de aula e feedback para melhoria de suas práticas.Tão pouco tem muita oportunidade para trabalhar em pares ou trios com outros educadores durante as etapas de planejamento, execução e avaliação das suas aulas. 

Da mesma forma, seus líderes, gestores educacionais, na grande maioria das vezes está imerso neste mesmo contexto, onde prosperam a escassez de tempo, a pressão das entregas e a falta de preparação para uma maneira de liderar que seja mais aderente ao cenário contemporâneo.

E qual tem sido a postura e a resposta das escolas para solucionar esse gap?

De maneira geral podemos dizer que as escolas têm investido em palestras, na participação em congressos (geralmente apenas para a liderança) e formações internas, que são pontuais e de acordo com a área de conhecimento ou segmento. Isso, se todo montante formativo já não estiver sendo investido nas reuniões pedagógicas que, apesar de importantes para os desafios do dia a dia, acabam não alocando tempo e espaço suficientes para à formação continuada e atualizada da equipe. 

Parece que, apesar de compreender as necessidades de mudança, as escolas, em alguma medida, ainda não perceberam que não possuem por si próprias os recursos necessários nesse caminhar. Por vezes, paira sobre a escola, a impressão de auto suficiência e uma dificuldade em assumir que, assim como todo mundo, precisa de ajuda, de investimento e de parceiros capazes de fornecer um apoio estratégico quando se trata da formação dos educadores e líderes educacionais em meio a este tsunami que começa a se formar.*

Sabemos que não são todas as escolas que tem capacidade de investimento adequado para formação dos seus educadores, mas queremos acrescentar aqui outro aspecto que na visão da Electi, impede um olhar prioritário para formação: Muitas vezes pensamos que simplesmente por sermos humanos, já sabemos tudo sobre nós mesmos, sobre nosso comportamento e nossas capacidades. Principalmente quando tratamos de habilidades como empatia, escuta, pensamento crítico, entre outros. 

Você se considera uma pessoa empática, aberta a escuta ativa e dotada de pensamento crítico? 

Raramente encontramos pelo caminho pessoas que não se consideram empáticas, capazes de escutar o outro ou dotadas de pensamento crítico, por exemplo. Mas os anos e a prática da Electi no desenvolvimento de competências, habilidades e atitudes, também conhecidas pelo acrônimo CHA’s, relacionadas a facilitação vem mostrando que, quando começamos a nos debruçar sobre elas, percebemos que na realidade não somos tão qualificados quanto pensávamos anteriormente. 

Explicamos: 

Ao começar uma formação de facilitadores nas escolas parceiras, a Electi realiza uma pesquisa com os participantes – geralmente líderes educacionais e também a equipe docente – perguntando o quanto se consideram bons em determinadas competências, conhecimentos, habilidades e atitudes. O resultado costuma ser bastante positivo e a maioria dos respondentes se consideram bons ou ótimos na avaliação de competências. O interessante é notar que, após o período formativo, estes relatam terem ampliado a sua consciência e transformado a sua prática.

Por exemplo: 

Considerando o total de pesquisas feitas com educadores antes do processo formativo com a Electi, 67,2% dos participantes consideram que “tem facilidade” ou “são muito bons” nas habilidades de Escuta ativa e empatiaquando o objetivo é aproximar-se dos alunos e contextualizar os conteúdos na realidade de cada turma. 

Enquanto isso, após o processo formativo, mais de 99,2% dos participantes afirmaram que, referente a essas mesmas competências, tiveram a sua sua consciência ampliada e 87,32% relatam que tiveram a sua prática transformada e no que se refere a escuta e empatia. 

Esse mesmo movimento, acontece com a imensa maioria das competências, habilidades e atitudes que compõem a matriz de avaliação da Electi, no que se refere a facilitação. Outros exemplos são:

CHA’s da facilitação Electi:

% Participantes consideram que “tem facilidade” ou são muito bons em relação aos CHA’s, antes do processo formativo com a Electi  

Comunicação interpessoal: 65,4%

Criatividade para planejar e facilitar encontros, aulas e reuniões significativas: 69,6%

Engajar os estudantes a partir da aprendizagem emocional: 55,4%

% de participantes que consideram ter ampliado a sua consciência em relação aos CHA’s, após o processo formativo com a Electi.

Comunicação interpessoal: 99,3%

Criatividade para planejar e facilitar encontros, aulas e reuniões significativas: 99,5%

Engajar os estudantes a partir da aprendizagem emocional: 98,3%

% de participantes que consideram que a sua prática foi transformada em relação aos CHA’s no dia a dia, após o processo formativo com a Electi. 

Comunicação interpessoal: 89,4%

Criatividade para planejar e facilitar encontros, aulas e reuniões significativas: 88,1%

Engajar os estudantes a partir da aprendizagem emocional: 86,4,7%

Além de demonstrar (felizmente) o impacto positivo e a mudança que o processo formativo da Electi proporcionou para os seus parceiros, os resultados das pesquisas iniciais e finais apontam uma discrepância significativa em relação a percepção dos participantes no que se refere ao potencial de desenvolvimento dos seus próprios CHA’s. Em outras palavras: 

Antes de começarem a desenvolver-se em determinada competência, não conseguiam visualizar o quanto ainda tinham para desenvolver e, por isso, achavam-se suficientemente bons. 

O que vemos na prática da Electi e suportados pelos resultados dessas pesquisas é que parece muito desafiador para o ser humano avaliar-se de maneira mais realista, quando o assunto são as competências que, no fundo, já “esperava-se” que fizessem parte do nosso dia a dia. Como se apenas por nascermos humanos, deveríamos ser especialistas em escuta, compreensão dos sentimentos, comunicação, entre outros. 

Para reforçar esse ponto, vamos a outro exemplo. O estereótipo e o imaginário que temos sobre o brasileiro geralmente inclui a empatia. Pensamos que somos um povo “quente”, acolhedor, que gosta de se comunicar e que ganha intimidade fácil. Porém, isso não significa que somos necessariamente empáticos. Em uma pesquisa realizada pela Universidade Estadual de Michigan (EUA) sobre os países mais empáticos, o Brasil ocupou apenas a incômoda 54º posição, de um total de 63. O que o estudo demonstra, na realidade, é o quanto não sabemos sobre o que significa empatia. E é por isso o resultado surpreende a quem lê. 

Mas por que devemos investir no desenvolvimento desses CHA’s?

Como não percebemos o quanto não sabemos sobre determinadas competências, automaticamente perdemos de vista o potencial de impacto positivo que pode ser gerado se começarmos a investir em desenvolvê-las. Existem diversos estudos que mapeiam, por exemplo, o impacto positivo do desenvolvimento de competências socioemocionais. 

Segundo a pesquisa “O Valor Econômico da Aprendizagem Socioemocional”, realizada pelo Teachers College da Universidade de Columbia nos EUA, a cada dólar que investimos no desenvolvimento das competências socioemocionais – CSE’s – no contexto escolar, 11 dólares são retornados para a sociedade por meio de economia nos gastos públicos.  

O retorno que é positivo para a sociedade, também é positivo para as escolas que estão investindo no desenvolvimento dos seus profissionais e no desenvolvimento das CSE’s. A ideia do retorno do investimento, seja ele financeiro, de marca ou de redução de custos, é assunto para um outro post inteiro. (Aqui tem um post bacana que recomendo que trata um pouco disso também, falando sobre prós e contras da rotatividade da equipe docente). Mas não é difícil perceber que, ao trabalharmos por uma educação integral e pela qualificação docente, criamos uma escola e uma comunidade que sentem mais pertencimento, mais afinidade e uma identificação com a proposta da escola. E, se acreditamos que a missão das escolas é dar conta de toda essa complexidade, investimento, parceria e colaboração são medidas nada menos do que urgentes. 

Vamos começar?

Artigo produzido pela nossa equipe editorial, pautada em uma ideia central trazida pelo Bruno Kibrit, co-fundador da Electi.

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