Lições do isolamento social

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O Coronavírus se transformou numa das maiores adversidades de nossa geração, muitos infectados, muitas mortes e uma enorme recessão dão contornos a esse delicado momento que vivemos. Durante esse isolamento social tive o privilégio de conversar com diversos diretores e educadores de escolas particulares de São Paulo e apesar de todas as complexidades, desde as financeiras até as emocionais diante da mudança (falei um pouco sobre isso no artigo curva da mudança), tenho escutado histórias que representam aprendizados interessantes e que podem nos dar algumas dicas sobre o futuro da educação.

De forma nenhuma quero minimizar as dores e os efeitos negativos dessa epidemia para milhões de brasileiros e bilhões de pessoas, é uma grande tragédia. Sim e… também é uma oportunidade de renascimento onde podemos lançar um novo olhar para educação e para comunidade escolar

Expansão da realidade, gerando autoconhecimento e novas habilidades

Toda vez que saímos de nossa zona de conforto temos a possibilidade de conhecer novas realidades e contextos, esse movimento nos demanda energia e esforço para adaptação e também permite nos reconhecermos em outra realidade, ou seja, temos a oportunidade de nos conhecermos outra vez ao olharmos para nós mesmos desse novo lugar, fora da rotina confortável e muitas vezes automatizada. Uma realidade em que temos que decidir nossas ações e construir novas atitudes.

Um bom exemplo é o de uma educadora que tinha dificuldades de usar as ferramentas tecnológicas para ensino a distância, mas que aceitou o desafio e com ajuda dos colegas se orgulhava dos avanços e das respostas que tinha dos educandos e em uma videoconferência com diversos educadores da escola pude notar que todos se orgulhavam do quanto ela havia aprendido sobre tecnologia e sobretudo sobre ela mesma. 

Relações e emoções no centro do processo educativo.

Na Electi utilizamos a facilitação como meio para desenvolvimento das competências socioemocionais no corpo docente e nos educandos. Em nossa história, desde 2013, vimos as escolas entendendo e buscando cada vez mais um processo de aprendizagem que considerasse as competências socioemocionais de seus educandos, principalmente depois do lançamento da base nacional comum curricular, em 2017. Apesar de entrar no radar dos líderes educacionais e despertar interesse de toda comunidade escolar, o desenvolvimento das relações e das emoções ainda não eram tratados como tema central do processo de aprendizagem e víamos isso pelos baixos orçamentos que as escolas dedicavam para formação dos educadores.

Em praticamente todas as conversas, tenho escutado o quanto esse tema está sendo importante nesse momento, alguns clientes agradecem terem passado pela formação antes do isolamento social, pois estão se ouvindo mais, trabalhando em coletivo, respeitando as próprias emoções e as dos outros. E independente de terem ou não feito a formação todos que conversei dizem que esse é um dos maiores desafios nesse momento, relações e inteligência emocional.

Entendimento, à partir da experiência, de um novo mundo (VICA)

Em nossas formação tentamos sempre trazer um pouco da visão da mudança de mundo que vivemos desde a pós contemporaneidade até os dias de hoje, a idéia da modernidade líquida, como descrita pelo filósofo polônes, Zigmunt Bauman é onde: “a única coisa permanente é a mudança e a única certeza a incerteza”. Ou ainda em uma imagem simplificada o conceito do mundo VICA, volátil, incerto, complexo e ambíguo. 

Já podíamos sentir isso na pele antes do Coronavírus e usávamos esse contexto para justificar a facilitação e o desenvolvimentos das competências socioemocionais, porém nem todos sentiam essa nova realidade com a mesma intensidade. Para ser sincero, olhando para o que está acontecendo, nem nós, da Electi, tínhamos dimensão de quão volátil (tudo mudou e muito rápido) Incerto (não temos como ter certeza sobre o futuro) complexo (o vírus atingiu o mundo inteiro e o simples ato de sair de caso pode ter consequências que nem imaginamos) e ambíguo o mundo poderia se tornar .

Proximidade com as famílias, conhecer as famílias e as famílias conhecerem seus filhos mais profundamente.

Esse é um dos acontecimentos que mais me chamou a atenção. Acreditamos naquele velho provérbio Nigeriano de que é necessário uma vila inteira para educar uma criança, ou seja, a educação nasce de trocas, baseada num sistema de afetos e de interesse pelo outro. Na prática víamos que muitos pais estavam desconectados da escola do filhos e isso por responsabilidade de todos, dos pais e também as escolas.

Aqui tenho visto 2 grandes movimentos, o primeiro está relacionado com o fato de que as escolas precisaram conhecer melhor o que estava acontecendo com as famílias, por vários motivos, mas muito por conta de renegociação e desconto nas mensalidades, principalmente as escolas que aderiram a estratégia do Um a Um, ou cada caso é um caso, o que significa compreender o contexto de cada família para poder combinar um valor adequado. Esse movimento aproximou muito a escola de sua comunidade, uma vez que possibilitou conversas onde ambos se vulnerabilizam e abrem seus corações. 

O segundo movimento está relacionado ao fato de que agora pais e filhos compartilham o mesmo espaço e convivem durante muito tempo, aqui o que vemos é uma grande oportunidade de descobrimento e reconhecimento do filho como um indivíduo inteiro, complexo e íntegro, um verdadeiro universo. Frases de descoberta como “não sabia que minha filha sabia fazer isso” ou ainda, “meu filho é muito mimado e não obedece nada”. O fato de conviver e trocar fez com o que pais conhecessem melhor seus filhos e também trouxe um senso de responsabilidade ainda maior na educação deles (que em alguns casos era deixado, em grande parte, para escola).

Importância de termos uma identidade forte na escola

A identidade da escola é algo muito importante e, na nossa opinião, central para a construção de uma política pedagógica coerente e em última instância para a sustentabilidade da escola. Podemos pensar na identidade em valores, missão e visão da escola, ou ainda em como as trocas são realizadas, com quais objetivos e o quais ações precisam ser feitas por todos. Algo que sempre reforçamos é a importância dessa identidade estar incorporada nas pessoas, educadores e educandos. Não adianta estar pendurado na parede, ser lido na reunião anual, estar no logo do colégio ou até na arquitetura do espaço, precisa estar nas pessoas.

O que aconteceu durante a migração para o online foi que a estrutura da escola deixou de ter esse suporte do prédio, da missão pendurada na parede, de passar por baixo do nome e logo da escola todo dia manhã e passou a ser exclusivamente na relação educador-educando. Nesse momento fica absolutamente translúcido o quanto cada relação e indivíduo carrega ou não a identidade da escola. 

E no futuro?

Agora imaginem só se transpormos esses aprendizados para nosso futuro, Einstein dizia que uma mente expandida nunca volta ao seu tamanho original e nosso objetivo com esse artigo é trazer consciência para essas mudanças para que as escolas possam usar esses novos recursos e aprendizados para potencializar a educação. Infelizmente, aprendizados que vieram acompanhados de um processo doloroso de atravessar essa tempestade. 

Vamos usar nossa criatividade e imaginar?

Uma escola em que sair da zona de conforto e o desejo por novos conhecimentos, habilidades e atitudes seja parte do processo educativo para educando e educadores.

Uma escola que coloque como valor central o desenvolvimento socioemocional de educandos e educadores.

Uma escola que esteja atenta às necessidades desse novo mundo e que prepare os educandos para essa realidade desenvolvendo a capacidade de resolução de problemas acima de conteúdos prontos.

Uma escola integrada com as famílias, numa relação de troca e afetos que potencializam a educação dentro e fora das escolas, figurativamente quebrando os muros da escola.

Uma escola que tem claro quem é, sua proposta, seus valores incorporados em cada indivíduo e assim sendo garantindo transversalidade, interdisciplinaridade e reforçado em todos os momentos à partir das relações de afeto.

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