O facilitador de aprendizagem: Um novo papel para educadores

facilitador de aprendizagem
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Resumo: Em dez, vinte ou trinta anos, contaremos para os mais jovens que durante um período da nossa história o processo de aprendizagem no contexto escolar baseava-se na dinâmica de um professor falando e quarenta alunos ouvindo, anotando e sendo avaliados pela capacidade de armazenamento e cópia das informações. Talvez, nesse dia, perceberemos o quanto tínhamos recursos disponíveis para mudar esse paradigma mais cedo. Nesse artigo, iremos falar sobre a inserção mais do que necessária da facilitação no contexto escolar, expondo as mudanças que precisam acontecer no papel do professor, e os principais desafios e competências para que este se torne um facilitador de aprendizagem. 

Nova hierarquia de valores, habilidades, atitudes e conhecimentos: 

Vem se tornando cada vez mais comum nas escolas pioneiras do Brasil e do mundo  a transição do papel do professor. Um encolhimento da imagem que construímos sobre “aquele que professa” e o nascimento, cada vez mais perceptivo, do educador como um facilitador de aprendizagem. Ou seja, alguém capaz de trabalhar de maneira alinhada à nova configuração que as escolas vêm ganhando no cenário contemporâneo.

Em linhas gerais, ao tentarmos compreender as características de uma escola adequada à educação para o século XXI, certamente encontraremos alguns pontos de convergência. Entre eles: gestão horizontalizada, grades curriculares mais flexíveis, menos disciplinas e mais projetos, conteúdos integrados aos desafios globais. Além disso, encontraremos uma valorização do desenvolvimento de competências e atitudes relacionais e emocionais para os estudantes. Nessas escolas, veremos os laboratórios e recursos para experimentação, além da criação de espaços (físicos, emocionais, metodológicos e temporais) para descoberta de novos saberes essenciais – por exemplo, para a inteligência artificial, segurança e privacidade de dados, ética nos ambientes virtuais, entre tantos outros que estão para surgir. 

Na imagem da escola descrita acima, não é difícil perceber a necessidade de uma nova ordem de hierarquia e priorização em relação aos conhecimentos, habilidades, atitudes e valores que esperamos dos profissionais. Passa a fazer muito mais sentido contar com educadores capazes de compor o processo de aprendizagem da escola de maneira mais sistêmica e integral, circulando por diferentes áreas de conhecimento, metodologias, projetos, idades e equipes. Educadores que respondam às demandas do dia-a-dia de maneira ativa e em consonância com a própria identidade e com o projeto pedagógico em que estão inseridos. 

Tal mudança ocorrerá de maneira gradual, se configurando mais como um movimento transição do que de pura disrupção. Ou seja, é uma transformação que envolve olharmos para aquilo que construímos até o momento com afeto. E, nesse processo, perceber quais conhecimentos e práticas ainda nos fazem sentido, ainda nos conectam com os nossos valores, e quais precisamos deixar morrer para dar espaço ao novo.

É exatamente essa circunstância, esse processo, que constitui o terreno fértil para florescer o novo, capaz de revigorar o papel dos educadores: a facilitação de aprendizagem. 

Os desafios e atribuições de um facilitador de aprendizagem no contexto escolar:

Gostamos de definir a facilitação como arte de extrair o conhecimento do coletivo para o coletivo, respeitando e estimulando o processo de aprendizagem, que é único para cada pessoa. Um processo que substitui a transmissão de informações pela criação de um espaço de construção colaborativa, onde os indivíduos são responsáveis por traçar um percursos que façam sentido para si e para o grupo em que estão inseridos. 

O facilitador precisa, então, exercer o papel de fio condutor e conector dos processos vividos por grupos e indivíduos. Para contribuir a um melhor entendimento das  atribuições de um facilitador, a Electi desenvolveu o diagrama abaixo. Nele estão contempladas as três grandes dimensões que compõem a aprendizagem no contexto escolar, e a demonstração do facilitador como elo entre elas. Na sequência, explicaremos um pouco da missão do facilitador para cada uma das três camadas: conteúdos, Competências socioemocionais e estratégias de aprendizagem ativa.

Diagrama de Facilitação Electi

1. Conteúdos que geram engajamento:

Em um contexto de mundo em que o acesso a informação está dado, é função do facilitador de aprendizagem exercitar a curadoria de conteúdos relevantes, bem como a integração destes com o mundo para além da escola. Ou seja, o facilitador precisa estar conectado com os desafios globais e proporcionar ambientes para que os estudantes utilizem os conteúdos curriculares como instrumento para a superar problemas e construir possíveis soluções e/ou reflexões que estabeleçam paralelos com a realidade daquele grupo e comunidade.

Quando os conteúdos estão colocados dessa maneira, naturalmente todo grupo (facilitador e estudantes) terá o estímulo necessário para desenvolver competências como pensamento crítico, visão sistêmica, argumentação, flexibilidade cognitiva, pesquisa-ação, dentre outras. 

2. Competências socioemocionais: 

São aquelas que irão nos diferenciar das máquinas, dos algoritmos e que irão nos preparar para viver em ambientes cada vez mais colaborativos, construir os nossos projetos de vida, tomar decisões mais conscientes e coerentes, e cuidar da nossa compreensão e desenvolvimento emocional. Cabe ao facilitador, então, integrar o desenvolvimento das habilidades de forma transveral aos componentes curriculares. 

Em meio a tantas novos modelos de trabalho, de convivência e aprendizagem, algumas competências tornam-se prioritárias. Dentre as principais destacadas pelo Fórum econômico mundial encontram-se: empatia, criatividade, gestão de pessoas, inteligência emocional, bom senso e tomada de decisão. Não por acaso, são competências em profundo alinhamento com as 10 competências gerais da BNCC

3. Aprendizagem ativa: 

São estratégias de aprendizagem que consideram o estudante no centro do processo. Elas implicam em transpor o uso de Metodologias Ativas para realmente compreender quais são os princípios contidos nelas. E, assim, utilizá-las considerando a experiência de aprendizagem dos estudantes de maneira integral. Ou seja, levando em conta variáveis como a arquitetura da sala de aula, a escolha de vivências e dinâmicas, o registro coletivo do conhecimento, a leitura e mapeamento do grupo, as oportunidades de colaboração, o fluxo de energia e engajamento que se pretende atingir com as atividades, entre tantos outros aspectos que são detalhados na metodologia “8 Pilares para facilitação” da Electi. 

Temos outro artigo que busca detalhar, de maneira mais específica, o processo de implementação da facilitação no contexto escolar.

Por onde começar? 

Diante de tantos desafios que cada uma dessas camadas apresentam para atuarmos como facilitadores de aprendizagem, percebemos a necessidade de nos enxergar e de estar no mundo de outras maneiras. Apesar de já existirem “soluções” focadas em desenvolver o Socioemocional com os estudantes, ainda é um desafio garantir que o educador tenha desenvolvido em si mesmo essas competências, pois se não tiver, não terá repertório e nem disponibilidade, para facilitar esse desenvolvimento para os outros. 

A transição para o modelo de educação adequado ao século XXI, em seu nível mais profundo, não é sobre novos métodos, tecnologias digitais ou estruturas físicas. Mas sim sobre as pessoas que irão operá-las. A mudança é sobre as novas capacidades, extremamente desafiadoras mas revigorantes, que precisaremos desenvolver como educadores.  

Então, apesar do caminho ser longo, parece que o único jeito de começar a trilhá-lo será reinventando, primeiro, a nós mesmos!

Separei alguns artigos para quem desejar se aprofundar em alguns temas tratados: 

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