Educadores x tecnologia: o futuro do trabalho na área da educação

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Quando exploramos questões ligadas ao futuro do trabalho, um dos temas mais recorrentes diz respeito à substituição de nossa mão de obra por robôs. Afinal, não faltam estudos indicando que uma parcela significativa das atividades que realizamos hoje já possa ser substituída por tecnologias emergentes, com destaque por ex. para a inteligência artificial e a robótica. Porém, devemos temê-las? E como esta mudança ressoa na área educacional?

Já trouxemos aqui e aqui alguns questionamentos sobre o papel do educador em um momento onde a educação pede novas competências para a atuação remota. Hoje pretendemos ir um pouco além dos desafios que o isolamento nos trouxe e pensar: para onde mais caminha o papel educador e como ele dialoga com os avanços da tecnologia? 

A tecnologia como reflexo do nosso impulso de ir além

Mais do que bits e bytes, desejamos propor uma rápida reflexão sobre a tecnologia como ferramenta. Um pedaço de pau para os seres pré-históricos já era tecnologia: por meio dele era possível se defender de predadores, apoiar-se em longas caminhadas ou mesmo produzir calor por meio do atrito

O ponto em questão não é o pedaço de pau em si, mas o uso que foi feito dele – e como este uso se reflete em uma função, aplicada à resolução de algo que nossa simples existência não é capaz de abarcar. A suportar nosso impulso de irmos além.

Com o tempo, sofisticamos nossas tecnologias e, consequentemente, nossas ferramentas, evoluindo igualmente nossa presença neste mundo. Um lápis ou um par de óculos são exemplos de excelentes tecnologias, embora nem sempre nos demos conta. Isto porque hoje, quando falamos sobre tecnologia, geralmente nos referimos às TICs – tecnologias de informação e comunicação. Ou melhor, esta que permitiu a evolução dos transistores, a criação dos computadores, da internet e desses populares gadgets dos quais não vivemos mais sem, vulgo nosos ‘smartphones’.

AS TICs são as responsáveis por sairmos de uma mentalidade linear e de uma economia tradicional e nos impulsionarmos para uma sociedade digital, em rede, que atende a outros tantos impulsos de irmos além – tais quais os seres pré-históricos um dia desejaram. E se hoje temos tantas novas tecnologias emergentes despontando, porque não nos questionarmos: a que novo além elas estão nos impulsionando? E principalmente: o que não nos cabe mais nesta nova era e que pede adaptação em nossa forma de ser e agir?

A tecnologia muda – E o trabalho muda também

Esta pergunta dá margem a respostas distintas dependendo do campo que quisermos analisar. Aqui, porém, vamos nos restringir ao campo do trabalho. E se entendemos que o modelo de trabalho que molda nossa sociedade hoje é fruto desta mesma mentalidade linear e industrial, logo percebemos que este campo também está em plena transformação.

O trabalho tal qual o conhecemos é o resultado de um sistema de produção de valor onde precisamos ocupar uma parte desta engrenagem, seja na linha de produção de uma fábrica (se remontarmos à época da revolução industrial), seja atuando para o bom funcionamento de uma área ou departamento (dentro do modelo organizacional contemporâneo), para garantirmos então a entrega deste valor, seja na forma de um produto ou serviço.

Nosso modelo de educação tradicional é resultado disso, e foi desenhado para nos preparar a ocupar uma parte desta engrenagem. Da escola à faculdade, buscamos desenvolver competências técnicas que nos tornem relevantes para a construção e posterior entrega deste valor final. Porém, se estamos cada vez mais nos impulsionando para uma sociedade digital e em rede, será que a geração do valor no trabalho continua se dando pela mesma lógica? 

Da mesma forma, e olhando especialmente para os profissionais da educação, o desafio é duplo: não só de transformar um modelo para que prepare jovens para os novos cenários que a tecnologia ajuda a impulsionar, como também de prepararem-se para este novo, sabendo que o que foi responsável pela geração de valor de suas profissões até aqui não será mais o mesmo daqui para frente.

Tudo e todos em transição

Esse dilema não é exclusivo aos profissionais de educação: todos nós, como profissionais, estamos sendo intimados a rever a entrega de valor de nosso trabalho para o mundo, sendo este o principal ponto sobre o qual o futuro do trabalho se debruça.

O que não podemos esquecer é que a evolução da tecnologia, mais do que um agente implacável e externo que nos pressiona a mudar e nos adaptar, significa a própria evolução do ser humano, daquele nosso impulso de ir além, com mais possibilidades de atuação, desbravando sempre novos mares, novas possibilidades. Acredito que a evolução da tecnologia se dá então para que sejamos estes melhores humanos. 

E por isso, ao invés de temê-la pensando se num breve futuro nossas atividades profissionais serão ou não substituídas por robôs, acredito que a tecnologia cada vez mais vai nos libertar daquilo que hoje já nos torna robôs. Afinal, ninguém nasceu para ficar preso a uma atividade que não revele seu brilho pessoal, seus talentos e seu poder criador.

Mas, na educação, o que ainda nos torna robôs?

Será que ainda estamos sendo protagonistas de um modelo de educação que está preparando indivíduos para serem facilmente substituíveis por robôs? Se sim, fatalmente, seremos os primeiros a serem substituídos. Se ainda trabalhamos em prol de uma educação conteudista, que pode ser substituída por um vídeo (olha a tecnologia aqui), resumida à necessidade de aprovação ou reprovação de alunos (e que lembra produtos em uma esteira de produção industrial, descartados em caso de defeito), realizado com base em um gabarito de simples conferência (o que também pode ser substituído por robôs), sem integrar nem desenvolver o olhar sistêmico, a complexidade e a unicidade de cada indivíduo, então não só urge a revisão do valor do nosso trabalho como educadores, como também – e pior – estamos falhando miseravelmente em nossa missão de preparar as pessoas para o futuro do trabalho.

É possível que algumas atividades oriundas da educação tradicional talvez não deixem de existir. Mas se elas forem de simples execução, realizadas de maneira mecânica ou operacional, certamente será mais barato e mais eficiente que sejam feitas por uma máquina. Devemos então lamentar que robôs terão ocupado o espaço desses profissionais ou agradecer a tecnologia por ter libertado educadores de funções que no fundo já os robotizavam?

O quanto estarmos presos a uma lógica que em breve não nos servirá mais? Mais desafiador que isso: o que então passará a existir? Ou o que precisa passar a existir para dar conta dos novos desafios destes novos tempos? 

O educador como cocriador do futuro

Estamos todos criando juntos o futuro. Ele não está lá, ao longe, predeterminado, prestes a eclodir a qualquer momento. E sim está sendo criado a cada dia. Às vezes ele se acelera em função de fatores, como esta pandemia que estamos enfrentando, mas que sem dúvida não antecipou nada que não prevíamos ser necessário mais cedo ou mais tarde: integrarmos a tecnologia, o mindset e a transformação digital em nossos negócios, tal como na educação.

De que forma então a tecnologia pode ajudar os educadores a fazer uma melhor entrega de valor do seu trabalho? Se ela tem transformado a forma e a função da educação (muito por conta de nossa própria necessidade de irmos além neste campo, já defasado em relação ao modelo industrial que lhe serviu de base ao ser criada), mais importante é entender – e também assumir-se no papel de cocriar – quais serão os novos campos aos quais ela irá nos alçar como indivíduos e como podemos ser úteis aqui. Não temos respostas prontas, mas estamos todos as construindo. E uma pista: já trouxemos várias reflexões sobre este novo fazer na educação em nossos artigos aqui no blog. Propomos que os explore e traga para nós suas reflexões. Vamos fazer juntos? Afinal, a construção do futuro que desejamos será tão potente quanto a soma de pessoas que desejarem torná-lo possível. Bom futuro para nós!

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