O que não é facilitação?

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Muitas vezes uma boa forma de se definir algo é pensar no que esse algo não é. E como sempre reforço: não apresento aqui uma verdade pronta, mas o resultado das minhas reflexões sobre o processo da facilitação e que acredito que de alguma forma serão úteis para a leitora interessada em facilitação de grupos e indivíduos. 

Começo olhando para nosso contexto cultural, vivemos em uma época em que, muitas vezes, a seção de auto ajuda ocupa um espaço maior que a de filosofia ou de literatura nas livrarias, assim como na lista de livros mais vendidos. E como fazemos muito na facilitação trago em forma de pergunta, um questionamento inicial:

Em que contexto surge a facilitação, e por que surge a facilitação?

Como coletivo desejamos ter caminhos prontos para nossos objetivos, queremos pílulas que nos ajudem a emagrecer, cursos que nos ensinam como ganhar dinheiro, um guia que explica em detalhes como nos relacionar melhor e como lidar com nossos sentimentos. Clamamos por resultados rápidos, simples e prontos para situações e problemas complexos.

O novo contexto de mudanças constantes e incertezas que surge durante a pós modernidade é alimentada por um modelo de consumo que nos vende a ideia de que, mesmo com toda a volatilidade do mundo, podemos ter uma fórmula mágica para evoluirmos como seres humanos, um jeito possível e padronizado de nos relacionarmos com o outro e com nós mesmos.

Quero clarificar que não sou contra livros de autoajuda, entendo que eles podem ser muito úteis como gatilhos interessantes, mas…

Será que é possível termos um caminho único que sirva para todos?

Eu acredito que não, a subjetividade humana não permite uma fórmula mágica e única para a equação da vida. Existem sim elementos e ferramentas que nos ajudam a atingir nossas metas, mas elas não estão prontas, precisam da abertura e do protagonismo de quem as cria. Isso significa que só podemos construir esse caminho a partir de um movimento contínuo e vivo que envolve autoconhecimento e experiências, isso é em síntese o conceito de facilitação e porque a facilitação está se tornando uma tendência cada vez maior.

Um bom exemplo é a lista de desejos de final de ano. Somos estimulados a  pensar numa lista de coisas que desejamos para o ano vindouro e junto, uma série de mudanças comportamentais, mas uma questão filosófica essencial muitas vezes fica de lado, qual sentido dessas metas para mim? E essa resposta requer uma energia individual, à partir de um processo de busca em conhecer-se. Posso afirmar se o que quero é realmente meu ou se somente faz parte de uma imagem de sucesso criada e vendida pelas mesmas pessoas que me vendem a sua solução?

Na facilitação o resultado não é mais importante que o processo

Não queremos aqui desvalorizar resultados e metas, afinal eles são tão importantes quanto o processo, queremos sim valorizar o processo, muitas vezes visto como secundário durante os encontros, projetos, vivências e dinâmicas em grupo. À partir da experiência e da reflexão geradas no processo que podemos compreender nossas reações, relações e emoções, para então compreender melhor os resultados e até revisitar nossas metas iniciais para validá-las ou refutá-las.  O Instituto para Desenvolvimento do Investimento Social –  IDIS, tem um artigo bem interessante sobre como a relação processo e resultado se dá entre investidor social e organizações do 3º setor.

A facilitação propõe uma oportunidade enorme de ressignificar o que é resultado ou até mesmo a forma como estabelecemos essa relação entre processo e resultado (a quem diga que ambos são a mesma coisa).

A importância do conceito da experiência na facilitação

A palavra experiência aqui está muito mais conectada com o conceito filosófico, que diz que é o conhecimento obtido por meio dos sentidos do que o conceito científico que traz a ideia de um experimento com base em um método científico. Sendo assim, na facilitação, precisamos sentir para que faça sentido.

A ideia de Larrosa sobre a experiência diz que é aquilo que nos passa, não algo que se passa ou que passa, mas aquilo que nos atravessa e nos transforma. Quando sentimos com qualquer um de nossos sentidos e conectamos conscientemente esse momento com nossas emoções estamos, na realidade, significando o que aconteceu com todo o nosso ser, nossas memórias afetivas, nossas experiências passadas, nosso repertório e tudo aquilo que vivemos e que nos transformou em quem somos. 

Essa nova perspectiva nos abre um campo infinito de possibilidades de aprendizagem, pois é autenticamente legitimado pela história de cada um de nós. Sem contar na potência de construção de grupo, à partir do desvelamento da verdade de cada um e de uma intenção coletiva de crescimento do grupo e do indivíduo, promovendo a troca e a empatia.

Facilitação não é um caminho pronto e único 

E sim a construção de um espaço de criação coletiva e individual aberto para que seja significado de inúmeras formas possíveis, baseado na história e contexto de cada um e do grupo.

Na Electi temos uma metodologia chamada de 8 pilares, que são o conjunto de percepções, conceitos e sentimentos que obtivemos em nossos anos de experiências desde 2013. Apesar de estar organizada como método, nossa intenção é jogar luz em alguns elementos e ferramentas que usamos durante nossa trajetória para construir esse ambiente conscientizador e  libertador.

Basicamente o que nos difere de um método científico tradicional é que na facilitação não existe nenhuma imposição, nem sobre os pilares, nem sobre as ferramentas. Tudo que trazemos existe para a criação de um ambiente que pode inclusive refutar a própria metodologia. Duas premissas que sempre usamos e verbalizamos são: não apresentamos nenhuma verdade pronta e compreenda o que faz sentido para você.

Se o facilitador é quem contribui para a criação desse espaço, quem que ensina o como fazer?

A facilitação não tem a pretensão de ensinar, mas sim de provocar o aprendizado e isso significa que cabe a cada indivíduo completar a lacuna entre o que foi vivenciado coletivamente e suas potenciais práticas futuras. Sendo assim, a expectativa de ter um passo a passo de como fazer é algo que não faz sentido (nem faz sentir). 

É necessário uma responsabilidade e um protagonismo de cada participante que ativamente precisa compilar o que viveu (situações, ferramentas, pilares) com suas emoções, sonhos, desejos, anseios, valores e crenças para que possa se tornar um facilitador único e autêntico. Aliás esse é o nome do nosso último módulo da formação de facilitação, o que te torna uma facilitadora única. E você, o que torna uma facilitadora única?

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