A digitalização do ensino e os novos desafios para educadores sob a ótica do futuro do trabalho

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As mudanças discutidas no universo da educação, tais quais tantas outras enfrentadas nesta transição da mentalidade linear para a industrial, já vêm se tornando realidade gradualmente. Mesmo em alta velocidade, têm permitido que escolas e educadores apertem o passo e se preparem para elas. Eis, porém, que o cenário muda a partir da pandemia global apresentada pelo novo coronavírus e o ritmo da caminhada (e das mudanças empreendidas até aqui) pode não ser o bastante para manter-se na corrida. Isto porque o vírus se mostrou um grande ‘acelerador de futuros’, fazendo com que muitas tendências antecipadas pelo futuro do trabalho e da educação sejam observadas desde já.

Por conta do confinamento, o primeiro grande desafio (ou susto) que se apresenta é lidar com a mudança compulsória de um modelo presencial para o remoto, tanto na educação e quanto no trabalho. Como muito temos ouvido falar, esta parece ser por si só a grande antecipação do futuro e das mudanças que enfrentaríamos. Mas é apenas o começo. E é neste ponto que os profissionais de educação devem se atentar para poderem seguir preparados para o “novo normal” pós quarentena.

De onde partimos e para onde iremos?

Tenho presenciado algum receio no público educacional sobre a possibilidade de espaços de ensino (graduações, MBAs e por que não, escolas de ensino básico) serem cada vez mais transformados em plataformas online. Particularmente, não acredito que o formato presencial seja totalmente substituível, principalmente no ensino escolar, porque não só temos inúmeros ganhos nas interações como também elas são componentes importante do aprendizado – sem contar o quanto suprem nossas necessidades humanas de conexão.

Fato é, porém, que a digitalização do ensino (e de qualquer outro negócio apoiado em tecnologias exponenciais) se mostra um caminho sem volta, ainda mais se considerarmos que o final de todo um ciclo de digitalização resulta na desmonetização e consequente democratização daquilo que foi digitalizado. Uma ‘consequência’ mais que necessária em tempos como os nossos – e uma bandeira que certamente muitos de nós levantamos em prol da melhora do nível social e econômico do nosso país.

É aqui que começamos a perceber os dilemas e desafios REAIS para os educadores, que serão a herança destes tempos difíceis e reclusos que vivemos. Como fazer chegar até o estudante aquilo que ele precisa receber para manter-se dentro do currículo proposto parece já estar sendo resolvido com o auxilio de ferramentas digitais. Não sem alguma dificuldade de adaptação e limitações no processo, claro, mas logo é possível criar uma nova rotina de transmissão do conhecimento, de produção de evidências de aprendizado, correções de testes virtualmente – e assim vamos nos familiarizando com o remoto, sem deixar para trás os objetivos do ano (e sem nunca esquecer que esta talvez não seja a realidade de nosso ensino público, nem de tantos outros contextos que sofrem pela falta de acesso à tecnologia).

E neste momento questionamos: se é possível manter esta rotina de forma remota, compartilhando com os alunos o material a ser estudado e as tarefas a serem realizadas, o que muda no papel do educador? Como ele se mantém relevante e continua entregando valor no seu trabalho para as instituições de ensino? O que se destaca para além do que já vinha sendo feito? E como as instituições e os gestores podem se preparar e também auxiliar os educadores neste processo?

O que diz o futuro do trabalho – e como ele pode ajudar neste momento

Dentre tantas possibilidades que os estudos sobre o futuro do trabalho oferecem, a que pode nos trazer pistas para estas respostas passam sem dúvida pela mudança pelas quais nossas relações estão sendo revistas – com nós mesmos, com o outro, com o mundo e, consequentemente, com nossa forma de trabalho que, grosso modo, me refiro como a expressão da nossa entrega de valor para o mundo.

Mais do que olhar apenas pelas lentes da tecnologia e em como ela impactará nos tipos e ofertas de trabalho – extinguindo muitos deles, mas também criando um sem número de outros – é vital entendermos quais anseios e aspectos econômicos seguem como pano de fundo. Afinal, a tecnologia não é boa ou má, e sim ambígua, ou seja, ela é ferramenta e será aquilo que desejarmos fazer com ela. E o que temos desejado? Quais são estes anseios?

Dentre muitos, fico com 3 que mais se relacionam com o trabalho e a educação hoje: a busca por autonomia, por autenticidade e por significado (também conhecido como ‘propósito’). Cada vez mais temos a oportunidade de acessar conhecimento e ferramentas para realizar aquilo que queremos, a um clique de nossos smartphones. Não faz sentido, assim, uma educação que não acompanha – ou pior, não reconhece – a autonomia do fazer e da escolha como grande impulsionadora para este futuro. Igualmente, num mundo repleto de trabalhos burocratizados que cada vez mais poderão ser realizados por máquinas, ser autêntico é quase mandatório. O mesmo vale para a busca por sentido: por que executar tarefas que não extraem as melhores habilidades de cada indivíduo? Não é mais aceitável não abrir espaço para que cada pessoa contribua com seu valor único e sinta que está realizando aquilo que realmente vale a pena para si e para o mundo.

Some-se a isso a ascensão das ‘novas economias’ que hoje estão revirando as lógicas tradicionais de acesso a bens de consumo e serviços, resgatando o valor do cuidar, do circular, incentivando o compartilhamento e a colaboração, bem como estabelecendo novas formas de conectar-se ao trabalho por meio de plataformas. A queda do tempo de vida médio das empresas, flexibilização dos contratos de trabalho e baixo engajamento dos colaboradores em organizações tradicionais são outras variáveis que têm impactado este futuro e tornando os modelos de trabalho cada vez mais flexíveis, simultâneos e em rede.

Tudo isso nos mostra que não estamos mais formando pessoas para simplesmente terem diplomas, pois isto não assegura mais o emprego outrora garantido pelas gerações Baby Boomers ou X. O futuro do trabalho vai muito além. Como estamos preparando as pessoas para resolverem problemas complexos? Pensarem de forma sistêmica? Desenvolverem sua criatividade? Melhorar sua comunicação e habilidades de liderança?

Mas os educadores estão preparados para ir além?

Como educadores, o desafio está em compreender como este momento pandêmico, ao oferecer uma intensa vivência de educação remota e da digitalização do ensino, conecta-se com um futuro do trabalho repleto da busca por autonomia e significado, que precisa preparar indivíduos para serem cada vez mais criativos e sistêmicos e assim lidarem com possibilidades mais fluídas de carreiras e autorrealização. Para isso, porém, é preciso fazer um exercício de dentro para fora e questionar: como os profissionais da área de educação estão desenhando seu futuro – que já é presente? Certamente já cientes de que devem ser muito mais do que simples transmissores de conteúdo (e de fato o sabem, mas nem sempre encontram espaço para tal), em um universo onde o aceso ao conteúdo pode ser feito a partir de uma simples conexão com a internet e uma pergunta no Google. O que se torna então o educador?

Na Electi apostamos no desenvolvimento das habilidades socioemocionais como resposta. Também chamadas ‘soft skills ou competências do século XXI’, elas despertam a questão para quem está na linha de frente: como desenvolvê-las nos educandos? E logo nos deparamos com a complexidade deste momento: só podemos ensinar aquilo que conhecemos e que praticamos. Logo, para difundir estas habilidades, educadores e gestores precisam incorporá-las às práticas escolares. E é aqui que reside uma competência essencial a ser desenvolvida, não só nos educadores, mas em líderes de forma geral: a competência da facilitação.

Ela se torna a resposta uma vez que lança educadores um patamar acima em relação ao papel que aprenderam a desempenhar.  Estimulam que estes sejam verdadeiros guias pelo mundo digital, curadores de conhecimentos, influenciadores da aprendizagem, co-construtores de uma realidade cada vez mais volátil que, ao quebrar com os padrões lineares que conhecemos, valoriza a abertura de espaços para a construção coletiva e participativa. Para o sentir, reagir e aprender. Para a arte de extrair o conhecimento e o aprendizado do coletivo para o coletivo, respeitando o processo de significação e aprendizado de cada um.

É neste lugar mais de exploração do que de receitas prontas que percebemos o novo papel do educador. E igualmente é a criação de espaços como estes que torna as instituições de ensino prontas para este futuro que já se faz presente, cheio de variáveis que não mais podemos controlar. E que renova a importância do educador em um momento onde processos educativos mais digitais e remotos são uma realidade sem volta, alçando-o como um verdadeiro facilitador de aprendizagem.

E você, o que está fazendo para ir além da teoria e trazer estes conhecimentos para a prática?

Esperamos que estas contribuições possam ajudar na construção dos rumos da educação pós pandemia, trazendo novos desdobramentos aos velhos desafios e ajudando a pavimentar tanto para educadores quanto para educandos uma formação mais humana, íntegra, e multidisciplinar – além de positiva, sempre.  =)

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