Tempo de mudanças: como gestores educacionais podem se inspirar em empresas inovadoras?

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Nunca mergulhamos duas vezes no mesmo rio, já dizia Heráclito em 450 a.c., ele se referia ao rio que muda suas águas ao correr e ao indivíduo que passou pela experiência do primeiro mergulho. Mudamos como indivíduos e mudamos como coletivo, nesse artigo quero falar sobre esse recente tempo de mudanças nas empresas e como as escolas podem se inspirar em alguns desses movimentos para potencializar o aprendizado, a produtividade e a conexão com os estudantes e comunidade.

Contexto, por que mudar?

Antes queria olhar para um contexto histórico através de uma provocação que escutei algumas vezes e que surge ao compararmos as escolas e os professores com outras empresas e profissões no decorrer do tempo. Pense como era o trabalho do engenheiro em 1800, reflita agora sobre as ferramentas que ele utilizava, a forma em que fazia cálculos, as projeções de como ficaria a obra e suas simulações, agora imagine como é hoje. E o médico? como eram os procedimentos, a sala de cirurgia, os equipamentos, as medicações. Como era a pouco mais de 300 anos atrás e pense em como é hoje. Visualize qualquer outra profissão. 

Quanto evoluiu o trabalho, o processo, o ambiente e as tecnologias nessas profissões nestes últimos 3 séculos. E agora o professor. Como era em 1800 e como é hoje? responda sinceramente, em termos gerais, o que mudou?

Muito pouco. Será um obstáculo quase intransponível enfrentar os desafios e aproveitar as oportunidades desse novo mundo (com inteligência artificial, incertezas, complexidades e mudanças o tempo todo) sem desenvolver competências que respondam à esse novo contexto. 

A prioridade deixa de ser a transmissão de um conteúdo, para apoiarmos os educandos na suas construções como indivíduos críticos, criativos, capazes de resolver problemas variados, que aprendam a aprender com as diversas possibilidades de conteúdos e formas, para que enfim saibam viver em harmonia com os outros e com a natureza. E o que o ambiente de inovação das empresas podem ensinar para as escolas? 

Diferenças e semelhanças entre escolas e empresas

Ciente de que as escolas também são empresas, quero abordar algumas diferenças e semelhanças entre ambos. Começando pelo elo comum, as pessoas, afinal boa parte dos colaboradores das corporações de hoje são fruto desse sistema educacional, ou seja, estão enfrentando esse novo mundo ao passo que buscam desenvolver as competências necessárias para essa nova realidade. É como trocar o pneu do carro com ele em movimento e ainda tem mais, essas competências estão conectadas com nossa essência humana, com nossas emoções e relações, nas empresas chamadas de soft skills e nas escolas mais conhecidas como competências socioemocionais. 

Imaginem só, começar a olhar para isso adultos, formados de outro jeito, olhando ao redor e vendo tudo se transformando. Isso requer colocar muita energia em conhecer-se e o autoconhecimento é sempre muito transformador, particularmente associo esse movimento ao que tenho visto: uma grande corrida por propósito, pessoas fazendo transições de carreira, buscando coaching de carreira e de vida, mudando de empresas para ganhar menos porém para empresas que tenham valores compatíveis, enfim uma busca por mais sentido e significado no trabalho e na vida. 

Onde podemos nos inspirar?

Diante dessas mudanças em seus colaboradores (e também em clientes, competidores e fornecedores) as empresas perceberam que precisavam mudar ou deixariam de existir e iniciaram um movimento que pode nos ajudar nesse repensar da escola. Não quero, de jeito nenhum, dizer que a escola tem que copiar as empresas, pois uma das grandes diferenças é justamente que o objetivo maior da escola se conecta com um compromisso coletivo e social na formação (ou transformação) de seres humanos conscientes e cidadãos atuantes, porém acredito que algumas dessas mudanças do mundo corporativo podem inspirar os líderes educacionais nessa difícil transição da escola e dos processos de aprendizagem.

Iniciativas reais nas empresas

Vamos então falar de algumas iniciativas já fortes no corporativo e que estão começando a reverberar nas escolas. Criatividade, velocidade da mudança com o poder descentralizado, capacidade de resolver problemas complexos são alguns elementos que tem ganho destaque. As empresas têm adotados movimentos e conceitos novos, a própria inovação tem se tornado cada vez mais central na hierarquia de valor das empresas. Gostaria de apresentar apenas alguns dos movimentos que tenho acompanhado e que educadores e líderes educacionais podem investigar e se inspirar:

Teoria U: “a proposta de seu criador Otto Scharmer é apresentar uma teoria que é uma poderosa tecnologia social de mudança, transformadora, que ajudará os líderes a enfrentar os seus desafios em um futuro cada vez mais complexo e imprevisível. O Modelo U sobre como abrir a nossa mente, emoções e vontade para chegarmos nos momentos de descoberta e de compreensão mútua é profunda e ao alcance de todos. […]”

Sistema Ágil: Por englobar orientações e métodos distintos que contribuem para que equipes desenvolvam soluções mais eficientes e dinâmicas, a metodologia ágil (também conhecida como metodologia agile) otimiza fluxos de trabalho, melhora a produtividade de projetos e eleva significativamente as perspectivas de sucesso do negócio.

A metodologia é baseada num manifesto criado em 2001 feito por 17 desenvolvedores de sistema em Utah, nos EUA. Entre os pontos chave de mudanças: Indivíduos e interações acima de processos e ferramentas; Software funcionando acima de documentação abrangente; Colaboração com o consumidor/cliente acima de negociação de contratos; Resposta às transformações/mudanças, mais do que seguir um plano.

Sistema B: Inspirado no Capitalismo consciente, este movimento não é guiado por nenhuma ideologia ou pessoa em particular. Ele é motivado por milhares de pessoas que querem trabalhar por um mundo melhor e não apenas por um salário. A proposta não se limita ao trabalho das equipes executivas: ele também leva a uma economia que inclua todos  e que possa criar valor integral para o mundo e para a Terra, promovendo formas de organização econômica que possam ser medidas com base no bem-estar das pessoas, das sociedades e da Terra de forma simultânea, e com considerações de curto e longo prazo.

Por fim mas não menos importante a facilitação de grupos. As empresas já têm usado metodologias diversas para extrair o conteúdo do coletivo para o coletivo, usando dinâmicas e ferramentas que potencializam a criatividade, respeito pelos valores individuais, diversão  em última instância as entregas e resultados, trabalhar o grupo aproveitando as habilidades e combinando perspectivas diferentes, as empresas conseguem ter mais caminhos e de um jeito mais rápido.

Nós na Electi, buscamos incrementar a facilitação da aprendizagem com referências no mundo da pedagogia e educação, sem deixar de olhar para essas outras mudanças do mundo e combinar o que faz sentido.

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